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sábado, 24 de março de 2018

Obrigando pais a serem ausentes - Alienação parental


A Alienação Parental consiste em um adulto responsável por uma criança ou adolescente que tenta impedir ou "envenenar" o relacionamento entre essa criança/adolescente e o pai, mãe ou avós, e, geralmente, ocorre quando o pai e a mãe da criança/adolescente estão separados ou em processo de separação. Apesar disso, é possível ocorrer mesmo com o pai e a mãe juntos. Comumente, o alienador é a mãe e o alienado é o pai, mas pode ocorrer o inverso ou que uma das partes seja composta pelos avós ou outros familiares.

De acordo com a Lei nº 12.318/10, são critérios para a existência da Alienação Parental:
  1. Existência de campanhas de desqualificação da conduta do genitor [alienado] no exercício da paternidade ou maternidade
  2. Dificultar o exercício da autoridade parental
  3. Dificultar o contato da criança/adolescente com genitor [alienado]
  4. Dificultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar [impedir as "visitas"].
  5. Omitir, intencionalmente, informações pessoais relevantes sobre a criança/adolescente, inclusive escolares, médicas e alterações de endereço
  6. Fazer falsas denúncias contra o genitor [alienado], ou contra familiares dele, para impedir ou dificultar a convivência dele com a criança/adolescente
  7. Mudar de residência, para local distante, apenas para dificultar ou impedir a convivência do genitor [alienado] ou de familiares dele.
Vários fatores culturais contribuem com a alienação contra os pais (mas não contra as mães) como a tendência a processos de disputa de guarda terem preferência pela guarda unilateral materna; textos "científicos" de que apenas a mãe basta, mas o pai não faz falta; estigmatizações pela linguagem (dizer que um pai atencioso é um "pai-mãe" ou "pãe"); crenças de que não é normal um homem querer se envolver nos cuidados infantis, dentre possíveis outros.

A Alienação Parental não deve ser confundida com a Síndrome da Alienação Parental, que consiste em sintomas físicos e psicológicos na criança/adolescente, decorrentes da Alienação Parental, e que ainda são controversos para muitos profissionais, mas costuma-se considerar sintomas da Síndrome da Alienação Parental: isolamento social, culpa injustificada, confusão mental, desatenção, queda de desempenho escolar e racionalizações fracas.

Embora eu tenha encontrado pesquisadores que alegam não existir Síndrome de Alienação Parental (e relatos na internet de que não existe nem Alienação Parental), fato é que algumas pessoas tentam usar os filhos(as) para punirem seus ex-companheiros e/ou familiares, como ocorreu com o Atercino, como eu disse no post passado. O fato de ainda não compreendermos muito bem suas consequências e como funcionam, não deve ser usado como desculpa para subestimarmos as consequências psicológicas de tais atos.

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Sugestão de documentário: Apagando o papai. Direção: Sandra Fernández Ferreira e Ginger Gentile. Argentina: INCAA e San Telmo Producciones, 2014. (1h 18min). Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=VLXEdcH4NIg>.

Fontes:

Fermann,I. L., Chambart, D. I., Foschiera, L. N., Bordini, T. C. P. M., &Habigzang, L. F. (2017). Perícias Psicológicas em Processos Judiciais Envolvendo Suspeita de Alienação Parental. Psicologia: Ciência e Profissão, 37(1), 35-47.

Jesus,J. A. de, & Cotta, M. G. L. (2016). Alienação parental e relações escolares: a atuação do psicólogo. Psicologia Escolar e Educacional, 20(2), 285-290.

Lei 12.318, de 26 de Agosto de 2010. Dispõe sobre a alienação parental e altera o artigo 236 da Lei nº 8.069, de 13 de Julho de 1990.

Zander,J. (2012). Parental alienation as an outcome of paternal discrimination. New male studies, 1(2), pp. 49-62. 

sábado, 10 de março de 2018

O homem é sempre culpado, mesmo quando se prova sua inocência

Our comfortable injustice, Part 1: Christians, race and ...



No dia primeiro de março de 2018, Atercino Ferreira de Lima foi solto após passar 11 meses preso, acusado de ter abusado sexualmente dos filhos. Porém, a denúncia mostrou-se falsa.

Após se separar da ex-companheira em 2002, ele foi acusado e passou 15 anos tentando provar sua inocência, até finalmente ser condenado a 27 anos de cadeia em 2017. O que chama a atenção é que uma psicóloga forense atendeu as crianças e fez um laudo indicando que elas não sofriam nenhum abuso do pai, mas sim da mãe. Apesar disso, as crianças ficaram sob a guarda da mãe, que lhes agredia para que elas testemunhassem contra o pai.

As crianças fugiram de casa e foram morar em orfanatos. Depois de crescerem, eles foram morar com o pai e registraram em cartório que nunca foram abusados pelo pai, mas as declarações foram arquivadas porque o processo estava nas mãos de instâncias superiores. Apenas quando o Innocence Project interviu, que o caso se desenrolou a favor de Atercino e seus filhos.

Apesar de todo o estresse e sofrimento, Atercino não tem intenção de acionar a ex-companheira judicialmente. Embora faça sentido que ele queira o fim desse pesadelo, ele foi acusado de um grave crime, o de abusar sexualmente de uma criança de 8 anos e outra de 6, sendo que seu acusador sabia que o crime nunca ocorrera.

A não-punição da ex-companheira (cujo nome não consigo encontrar) e o silêncio da sociedade e da grande mídia sobre esse caso, incentiva que casos semelhantes ocorram. É impossível saber ao certo a quantidade de falsas acusações, principalmente as falsas acusações de abuso sexual e menos ainda quando envolvem o abuso de crianças. As estatísticas variam de 6% a 80% dependendo do método usado.

Essa variação pode ser decorrente de casos considerados inconclusivos, dificuldade de identificar se a falsa denúncia foi feita conscientemente com o fim de prejudicar o acusado (ou outra pessoa) ou resultado do erro de algum profissional. O que parece ser certeza é que quase sempre a mãe faz a falsa denúncia contra o pai e, nos casos em que ela sabia que não houve crime, a motivação foi simplesmente querer fazer o ex-companheiro sofrer.

Esses casos são típicos do que está sendo chamado de alienação parental e que abordarei melhor na próxima publicação. Por isso, inscreva-se para receber a continuação diretamente no seu e-mail.

Fontes:
http://www.apase.org.br/93002-deliasusana.htm

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/justica-de-sp-manda-soltar-homem-que-foi-condenado-injustamente-por-abusar-sexualmente-dos-filhos.ghtml?utm_source=facebook&utm_medium=share-bar-desktop&utm_campaign=share-bar

https://portal6.com.br/2018/03/03/homem-acusado-injustamente-de-abusar-dos-filhos-e-solto-pela-justica/

sábado, 13 de janeiro de 2018

Diferenças entre homens e mulheres - parte 2


Terminamos 2017 falando sobre a teoria E-S e diferenças de motivação entre os sexos e retomaremos em 2018 continuando daí.

Falei da teoria E-S porque, juntando tudo que sei sobre a masculinidade e a feminilidade, parece que o "coração" das diferenças de gênero consiste numa tendência inata de homens prestarem mais atenção em coisas mecânicas e pragmáticas, enquanto a atenção feminina tende a focar em pessoas e relacionamentos.

Chamo de tendência porque, como tudo no estudo de seres vivos, essa regra não é absoluta. Há pessoas que, por razões desconhecidas, parecem ter a preferência invertida. Essas pessoas tendem a se comportar e fazer escolhas consideradas estranhas para o seu próprio sexo, mas, ao contrário do que possamos pensar, não significa necessariamente que sejam homossexuais.

Isso pode ser observado já no primeiro dia de vida. Coloque o/a bebê deitada e, de um lado, coloque uma boneca ou algo que lembre um rosto humano. Do outro lado, coloque algo que não lembre um humano, como um carrinho. Agora, cronometre quanto tempo o/a bebê fica olhando para cada objeto. Quase sempre, o menino passará mais tempo olhando para o carrinho que para a boneca, e o contrário ocorrerá com a menina. Essa diferença é estatisticamente significativa.

Há quem defenda que a diferença seja ensinada, mas isso parece improvável se considerarmos que ela já está presente muito antes do/a bebê aprender que as pessoas são diferenciadas em dois sexos ou do adulto ter tempo de ensinar a criança o que é "coisa de menino" e o que é "coisa de menina". Além disso, se você repetir esse experimento com alguns animais, principalmente outros primatas, você terá praticamente o mesmo resultado, reforçando a hipótese de que essa tendência não é aprendida.

A ideia de que todas as diferenças são resultantes apenas da criação é tentadora, pois queremos acreditar que podemos controlar quem nossos filhos e filhas serão. Que as crianças não passam de tábulas rasas esperando que lhes programemos para ser de um jeito ou de outro, mas, precisamos aceitar que só podemos influenciar os outros até certo ponto. Podemos não perceber ou não querer acreditar, mas os bebês já nascem com vontade própria, já tem uma opinião sobre o que gostam e o que não gostam e, como toda opinião, ela pode ser alterada, mas não há garantias.

Para saber mais, inscreva-se para ser notificado de novas postagens, leia meu ebook ou compareça no meu workshop.


Fontes:

Baumeister, R. (2010). Is there anything good about men?: how cultures flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press.
Menezes, A. B. de C., & Brito, R. C. S. (2013). Diferenças de gênero na preferência de pares e brincadeiras de crianças. Psicologia: reflexão e crítica, 26(1), 193-201. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79722013000100021&lng=en&nrm=iso>.
Menezes, A. B. de C., Brito, R. C. S., Figueira, R. A., Bentes, T. F., Monteiro, E. F., & Santos, M. C. (2010). Compreendendo as diferenças de gênero a partir de interações livres no contexto escolar. Estudos de Psicologia (Natal), 15(1), 79-87. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/epsic/v15n1/11.pdf>.
Menezes, A. B., Brito, R. C. S., & Henriques, A. L. (2010). Relação entre gênero e orientação sexual a partir da perspectiva evolucionista. Psic.: teor. e pesq., 26(2), p. 245-252. Doi: https://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722010000200006

Primeiro episódio de “Hjernevask” (Levagem cerebral). Criação: Harald Eia e Ole-Martin Ihle. Noruega: NRK1, 2010. (38min 51s). Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=sIgH7Hlsbag>.
Documentário "Science of men" (Ciência de homens). Criação: Anna Fitch. Estados Unidos: National Geographic, 2008

sábado, 18 de novembro de 2017

Como está a situação do homem e o que esperar para o futuro?

Esse tema foi sugerido pelo Carlos Lira na página do facebook e é, talvez, o tema que mais interessa os leitores desse blog.

Um dos métodos considerados mais eficazes para entender os valores coletivos é a análise de histórias populares, comerciais e afins. Um dos estudos mais surpreendentes descobriu que em comerciais com um homem e uma mulher, no qual um dos dois é retratado como um idiota ou perde uma competição, o perdedor ou idiota é o homem em 100% dos casos. Esse é um resultado chocante, pois é tecnicamente impossível obter 100% em um estudo envolvendo humanos e, ainda assim, aconteceu. Desde então, diversos outros pesquisadores têm repetido o estudo e sempre encontraram o mesmo resultado.

Outro exemplo de uma mídia com público específico, mas que acredito que reflita a forma como a sociedade em geral percebe o homem é a história em quadrinhas de Thor, personagem da Marvel baseado na divindade nórdica de mesmo nome. Na cultura nórdica, o martelo de Thor (Mjolnir) representava a masculinidade e amuletos representando-o eram usados para conferir fertilidade às mulheres e proteção. Contudo, nos quadrinhos, ele não só deu a uma mulher os poderes de Thor, como impedi-a de se curar de seu câncer. O que antes gerava e protegia a vida, agora é uma fonte de poder autodestrutiva.

Sócrates Nolasco escreveu um livro sobre a mudança que ocorreu no último século do ideal de masculinidade ser associado a personagens fortes, como Tarzan, e que hoje é associado a Homer Simpson. Farrell compara o ideal pré-feminista com o programa de comédia Father knows best (papai sabe o melhor) e diz que o ideal atual é Father molest (papai abusa).

Aquele que, para mim, representa o melhor exemplo da situação atual da masculinidade são os filmes de Shrek. Shrek é retratado como um porco, rabugento, muito gentil, mas que está sempre tentando passar a impressão de ser mau. Ele acaba se apaixonando por uma mulher que corresponde aos ideais de beleza e que, apesar de demonstrar ter as qualidades para ser independente (cena em que Robin Hood tenta "salvá-la" de Shrek), precisa ser salva de seu castelo-prisão. Além disso, apenas depois de Shrek se declarar, sua "verdadeira" forma é revelada.

Ele acaba se tornando amigo de um burro tagarela, um gato galeanteador, um mentiroso cara-de-pau, um lobo que come menininhas e um menino doce (homem-biscoito). Shrek é frequentemente retratado como egoísta, mau-educado e irresponsável, como em Shrek 3 e, principalmente, em Shrek 4ever. Fiona, por outro lado, é sempre retratada como forte, decidida e sensata.

O que esperar para o futuro? Difícil dizer. Acredito que, inicialmente, a situação piorará muito, para só depois de algumas gerações melhorar. Contudo, como vivemos na era da informação e das mudanças rápidas, a melhora pode chegar muito antes de minha previsão. O fato é que, considerando que a tecnologia está tornando a força física cada vez mais desnecessária, os trabalhos cada vez mais seguros e as mulheres tendo cada vez menos filhos e em idade cada vez mais avançada, a tendência que as diferenças entre homens e mulheres diminuam e o modelo antigo seja completamente abandonado, pelo menos, até que alguma tragédia ocorra.

Discuto isso com mais detalhes no meu ebook, também disponível em versão impressa no site em inglês da Amazon. Se gostou desse post, curta, compartilhe e deixe seus comentários. Se gostou do livro ou ebook, lembre-se de deixar sua avaliação.

Referências

Baumeister, R. (2010). Is there anything good about men?: How cultures flourish by exploiting men. New York, Oxford University Press.

Farrell, W. (2001). Father and child reunion: How to bring the dads we need to the children we love. New York, Tarcher.

Moraes, Y. L. (2017). Ser homem ou não ser?: O que é ser homem no início do século XXI. [s.l.], independently publisher.

Nolasco, S. (2001). De Tarzan a Homer Simpson: Banalização e violência masculina em sociedades contemporâneas ocidentais. Rio de Janeiro, Rocco.

sábado, 28 de outubro de 2017

Violência contra o homem

Hoje em dia, é aceito por psicólogos(as) que negros e pobres cometem mais crimes por serem "minorias", por serem "socialmente marginalizados", e que o vandalismo ou crimes cometidos por adolescentes sejam um pedido de ajuda, um sintoma geralmente desencadeado por situações de vulnerabilidade. Entretanto, quando consideramos que a maioria dos crimes e atos violentos são cometidos por homens, tendemos a ter duas reações: dizer que isso é esperado, pois homens são mais violentos, ou dizer que isso é resultado da cultura machista, que educa homens para serem dominantes e usam da violência para demonstrar seu poder. (Farrel, 1993/2014)
Você aceitaria se disséssemos que a maioria dos crimes são cometidos por negros, pobres e adolescentes porque isso é apenas uma característica normal desses grupos ou que isso é uma demonstração de seu poder?

Por outro lado, o que acontece quando consideramos o contrário? Quando consideramos que homens são maioria das vítimas de violência (Mapa da Violência, 2015, 2016) e que também sofrem violência na intimidade (ou conjugal ou doméstica, ou como prefira chamar) (Zaleski, Pinsky, Laranjeira, Ramisetty-Mikler & Caetano, 2010). Acho lamentável quando pessoas, algumas vezes "especialistas em violência", dizem que essas situações são menos importantes porque são "homens batendo em outros homens" ou que "esses casos são minoria".

Se alguém te dissesse que uma mulher foi vítima de um crime e o crime não será levado a sério porque o autor do crime é outra mulher, você consideraria isso aceitável? O número de casos de morte de mulheres em episódios de violência doméstica não é nem 10% do número total de homicídios. Você aceitaria se esse fato fosse usado como justificativa para não haver mais estudos sobre violência doméstica, para acabar com todas as delegacias da mulher e ONGs que lutam contra a violência contra a mulher? Se a resposta é não para ambas as perguntas, você também não deve aceitar a violência contra o homem, independente do sexo do perpetrador ou da quantidade de vítimas.

Na verdade, vários autores defendem que a violência doméstica contra o homem é tão comum quanto a violência contra a mulher, mas existe um viés tão forte de pesquisadores e dos meios de divulgação em retratarem a mulher como vítima, que violência doméstica se tornou sinônimo de violência contra a mulher, decorrente de um desejo masculino de oprimir a mulher, quando, na verdade, é causada por problemas na dinâmica do casal, pela dificuldade de se colocar no lugar do outro, de negociar as diferenças, pela incompatibilidade de objetivos e pela ausência de uma cultura de responsabilidade mútua. (Alvim & Souza, 2005; Andrade, 2008; Farrell, 1991; 1993/2014; Oliveira & Souza, 2006; Strauss, 2007; Zaleski et al., 2010).

O único estudo brasileiro que encontrei que quantificou tanto as vezes que homens quanto as vezes que mulheres estiveram envolvidos em casos de violência por parceiro íntimo, tanto no papel de agressor quanto no vítima, foi o de Zaleski et al (2010), que, conforme pode ser observado no quadro abaixo, encontra valores próximos de perpetração e vitimização para os dois sexos.

Prevalência de violência por parceiros íntimos nos últimos 12 meses. Brasil, 2005-2006 (Zaleski et al., 2010, p. 57)
Variável
Masculino n=631
Feminino n=814
X²(df)
Qualquer tipo de violência íntima (incluindo mútua, somente perpetração e somente vitimização)
10,7%
14,6%
4,76(1)*

Perpetração
Vitimização
Perpetração
Vitimização

Atos leves





Jogar algo
2,2%
3,4%
6,0%
2,7%

Empurrar, agarrar ou sacudir
7,4%
4,1%
9,3%
6,3%

Tapa
3,2%
4,2%
6,0%
3,9%

Atos graves





Chutar ou morder
0,9%
1,4%
2,2%
1,2%

Bater com algo
1,6%
2,9%
5,5%
2,2%

Queimar
0,0%
0,1%
0,0%
0,1%

Sexo forçado
0,8%
0,3%
0,6%
1,2%

Ameaçar com faca
0,4%
1,5%
1,2%
0,9%

Usar faca/arma de fogo
0,2%
0,9%
0,2%
0,3%

Tipo de violência





Mútuo
5,3%
6,3%

Somente perpetração
3,9%
5,7%

Somente vitimização
1,5%
2,6%

Sem violência
89,3%
85,4%

* p <0,05.

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Obra citada não disponível online
Farrell, W. (1991). Por que os homens são como são (trad. Paulo Froes). Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.

sábado, 16 de setembro de 2017

Trabalho e suicídio - quanto vale a vida do homem?

O trabalho é tão importante para os homens que o desemprego e a aposentadoria aumentam as chances de homens se suicidarem, mas não têm o mesmo efeito em mulheres.

Isso porque, em praticamente todo o mundo, ser um produtor é condição indispensável para que o homem seja digno de ser respeitado e amado. Ser um "homem de verdade" é, geralmente, associado com a capacidade de sustentar a si mesmo, à sua família e, se possível for, por que não o bairro ou uma instituição. No Japão, por exemplo, a vida de um homem é considerada inútil e desonrada se não estiver a serviço dos outros.

Para eles, uma vez que é impossível vivermos sozinhos, pelo menos nos primeiros anos de vida, todos temos uma dívida com a sociedade, dívida que só pode ser paga ao morrer protegendo, sustentando e cuidando dos outros. Não é a toa que as cartas e documentos deixados pelos pilotos kamikaze demonstram um tom de orgulho e alegria em serem escolhidos para se suicidarem em combate. Porque assim, sua dívida estaria paga.

Tal mentalidade é tão forte que, mesmo nesses tempos de "equidade", educamos as mulheres para trabalharem e serem independentes, poderem comprar suas roupas, maquiagens e afins sem terem de pedir dinheiro para o marido, mas ainda dizemos aos nossos filhos que eles devem procurar um "bom emprego" (o que geralmente significa um emprego que pague muito) para constituir uma família.

Assim, para o homem, o desemprego nunca é um simples contratempo econômico ou problemas financeiros, mas ao não ter emprego, o homem também costuma perder a sua própria identidade de homem, algo que, psicologicamente, pode explicar o aumento de casos de disfunção erétil (impotência sexual) em homens desempregados.

BAUMEISTER, R. F. Is there anything good about men?: How culture flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press, 2010. Cap. 9-10, p. 187-220.

FARRELL, W. Por que os homens são como são (tradução de Paulo Froes). Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991.

______. The myth of male power: why men are the disposable sex. [s.l.]: Dr. Warren Farrell, 1993/2014. Ebook Kindle.

GILMORE, D. D. Action and ambiguity: east and South asia. In: ______. Manhood in the making: cultural concepts of masculinity. New Haven, NY: Yale University Press, 1990. Cap. 8, p. 169-200.

QIN, P.; AGERBO, E.; MORTENSEN, P. B. Suicide risk in relation to socioeconomic, demographic, psychiatric, and familial factors: a national register-based study of all suicides in Denmark, 1981-1997. The American journal of Psychiatry, [s.l.], v. 160, n. 4, p.765-772, 2003. Disponível em < http://ajp.psychiatryonline.org/doi/full/10.1176/appi.ajp.160.4.765>. Acessado em 10 de setembro de 2017.

sábado, 19 de agosto de 2017

Masculinidade em construção

Hoje abordaremos um livro clássico, "Manhood in the making" (Masculinidade em construção) é o livro mais famoso do antropólogo David D. Gilmore e, provavelmente, o estudo mais completo sobre a masculinidade em diferentes sociedades. Nesse livro, o autor reuniu tudo o que conseguiu sobre o que cada sociedade considera "um homem de verdade" e por que, resultando numa análise aprofundada de 11 sociedades mais uns pedaços de outras.
Essa obra tende a ser odiada por defensores da teoria de que gênero é uma construção social e que existem múltiplas masculinidades e feminilidades (por exemplo, Pleck, 1995). A razão segundo eles é que Gilmore defende um essencialismo universal e imutável do que é homem e o que é mulher. Entretanto, eu li o livro e não vi nada de essencialismo. Na verdade, o autor deixa bem claro, logo na página 3, que acredita ser a cultura mais importante, apresentando prós e contras das teorias psicanalíticas, evolucionistas e marxistas. 

Gosto desse livro, principalmente, por ser uma verdadeira análise de diferenças culturais. Não é que nem os incontáveis "sabe-tudo" que dizem ter comparado diferentes culturas, entendendo "diferentes culturas" por "São Paulo x Bahia", "Brasil x EUA" ou "filósofos do século XX vs Platão". O autor compara os habitantes de Andaluzia (região da Espanha),  os índios meinacos (estado do Mato Grosso), japoneses, sambianos (Papua Nova-Guiné), judeus, americanos, o povo masai (Quênia e Tanzânia), o povo semai (Malásia) e outros
O livro é iniciado com algo que não é novidade para quem já leu alguma coisa sobre diferentes culturas: a divisão sexual de papéis parece ser a mesma em praticamente todo o mundo. Segundo o autor, apesar de haver diferenças culturais, as semelhanças são mais frequentes e, a medida que vai analisando os ideais de masculinidade e as explicações dadas por cada povo, vai concluindo essa divisão de papel têm íntima conexão com desafios comuns a quase todos os povos. A divisão de papéis, para Gilmore, parece ser uma estratégia de sobrevivência que busca conciliar duas forças, geralmente, opostas: nossos desejos individuais e as demandas sociais/ambientais.
Para entendermos os ideais de masculinidade é preciso ter em mente que "uma sociedade pode sobreviver à perda de homens mais facilmente que à perda de mulheres" (Friedl, 1975, p. 135 apud Gilmore, 1990, p. 121). Isso porque as mulheres só podem ter um ou dois bebês por ano, mas os homens podem ter um quantidade quase ilimitada, desde que hajam mulheres disponíveis. Além do mais, a gestação e lactação atrapalham a mulher em certas atividades. Por essa razão, acaba sobrando aos homens os trabalhos mais perigosos e que, se tiverem escolha, jamais aceitariam.
Sendo assim, as sociedades precisam obrigar os homens a assumirem tais tarefas através do que Farrell (1986) chama de "suborno social": se eles não desempenharem seus papéis com competência, serão ridicularizados, marginalizados e lhe serão negadas o status de "homens de verdade" (essas três consequências sendo consideradas piores que a morte). Por outro lado, se eles desempenharem com eficiência, serão admirados e amados, além de receberem vários benefícios, como o direito de ter quantas esposas quiserem.
Para isso, o status de "homem de verdade" consiste de um estado artificial (não adquirido naturalmente, mas induzido culturalmente), que precisa ser ganho contra poderosas adversidades, pode ser perdido e consiste em uma atuação pública. Apesar das diferenças culturais, há três elementos quase sempre presentes: engravidar mulheres, proteger seus dependentes e sustentar amigos e parentes; tarefas que exigem liberdade de ação.
Um exemplo notável é do povo Samburu (Quênia), no qual um homem de verdade deve ter como objetivo se tornar um patrono tribal. Para isso, devem ser criadores de gado eficientes e, no passado, guerreiros habilidosos. Com a colonização, a guerra não é mais permitida, mas os jovens ainda fazem competições de altruísmo para ganhar status. Um homem de verdade deve dar mais que receber e aquele que consegue dar mais, recebendo menos é mais homem que o inverso. Também é fundamental que tenha virtudes como assertividade e destemor. Por fim, para os Samburus, um homem ser dependente de alguém, seja outro homem ou mesmo uma mulher, é considerado um atentado contra a própria honra.
Outro exemplo é o Japão, em que ser "homem de verdade" consiste em viver para o coletivo, sem jamais reclamar. Assim, as virtudes de um homem são a coragem, determinação, responsabilidade, papel ativo nas relações econômicas e sexuais, autonomia e "jogo de cintura". Quem está acostumado a assistir animes estilo shonen já deve ter percebido que o protagonista é aquele que "recebe os sentimentos" de seus amigos e protege o mundo não por glória ou por ser um idiota que gosta de correr perigos, mas porque tem o poder e habilidade de proteger aquilo que seus amigos amam.
Como muitos podem tentar argumentar, existem exceções. O povo semai e os taitianos são exceções e são geralmente vistos como exemplos de sociedades em que não há divisão de gênero. Isso é verdade, mas também é verdade que eles são um povo que não precisam arriscar a vida para obter comida, água ou matéria-prima para seus utensílios. Tudo que precisam existe em abundância e é de fácil obtenção. Também não precisam se preocupar em defender mulheres e crianças de ataques de animais ferozes ou em guerras, pois esses não existem ou é fácil de fugir e sobreviver. Consequentemente, não há necessidade dos homens competirem entre si, a economia é totalmente cooperativa e a ambição é desencorajada.
Entretanto, Gilmore encontrou relatos de pessoas desses povos que pareciam questionar a masculinidade de algum outro integrante. Assim, ideologias de masculinidade também existem entre esses povos, eles apenas não dão tanta atenção quanto aqueles que dependem de tais ideologias para sobreviver.

Concluindo, os papéis sexuais, principalmente esses que nós aprendemos a chamar de "papéis tradicionais", "hegemônicos" e/ou "machistas", consistem de adaptações a ambientes sociais com o objetivo de superar adversidades ambientais e escassez de recursos, preparando os homens para defender seu povo e sua família, a suportar os desafios de trabalhar, além de ser esperado por ambos os sexos. Tais papéis devem ser desempenhados de forma pública para garantir a estabilidade, segurança e poder coletivo do grupo, sendo o fracasso punido com a perda de sua identidade de gênero/sexual. Aqueles que desejam o desaparecimento de tais ideologias devem ser capazes de assumir o papel que tais ideologias desempenharam ao longo de incontáveis séculos.

Obras citadas não disponíveis online
Farrell, W. (1986). Why men are the way they are. Ebook ed. New York: Berkley Books.
Gilmore, D. D. (1990). Manhood in the making: cultural concepts of masculinity. New Haven, London: Yale University Press