Mostrando postagens com marcador gênero. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gênero. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de março de 2018

O homem é sempre culpado, mesmo quando se prova sua inocência

Our comfortable injustice, Part 1: Christians, race and ...



No dia primeiro de março de 2018, Atercino Ferreira de Lima foi solto após passar 11 meses preso, acusado de ter abusado sexualmente dos filhos. Porém, a denúncia mostrou-se falsa.

Após se separar da ex-companheira em 2002, ele foi acusado e passou 15 anos tentando provar sua inocência, até finalmente ser condenado a 27 anos de cadeia em 2017. O que chama a atenção é que uma psicóloga forense atendeu as crianças e fez um laudo indicando que elas não sofriam nenhum abuso do pai, mas sim da mãe. Apesar disso, as crianças ficaram sob a guarda da mãe, que lhes agredia para que elas testemunhassem contra o pai.

As crianças fugiram de casa e foram morar em orfanatos. Depois de crescerem, eles foram morar com o pai e registraram em cartório que nunca foram abusados pelo pai, mas as declarações foram arquivadas porque o processo estava nas mãos de instâncias superiores. Apenas quando o Innocence Project interviu, que o caso se desenrolou a favor de Atercino e seus filhos.

Apesar de todo o estresse e sofrimento, Atercino não tem intenção de acionar a ex-companheira judicialmente. Embora faça sentido que ele queira o fim desse pesadelo, ele foi acusado de um grave crime, o de abusar sexualmente de uma criança de 8 anos e outra de 6, sendo que seu acusador sabia que o crime nunca ocorrera.

A não-punição da ex-companheira (cujo nome não consigo encontrar) e o silêncio da sociedade e da grande mídia sobre esse caso, incentiva que casos semelhantes ocorram. É impossível saber ao certo a quantidade de falsas acusações, principalmente as falsas acusações de abuso sexual e menos ainda quando envolvem o abuso de crianças. As estatísticas variam de 6% a 80% dependendo do método usado.

Essa variação pode ser decorrente de casos considerados inconclusivos, dificuldade de identificar se a falsa denúncia foi feita conscientemente com o fim de prejudicar o acusado (ou outra pessoa) ou resultado do erro de algum profissional. O que parece ser certeza é que quase sempre a mãe faz a falsa denúncia contra o pai e, nos casos em que ela sabia que não houve crime, a motivação foi simplesmente querer fazer o ex-companheiro sofrer.

Esses casos são típicos do que está sendo chamado de alienação parental e que abordarei melhor na próxima publicação. Por isso, inscreva-se para receber a continuação diretamente no seu e-mail.

Fontes:
http://www.apase.org.br/93002-deliasusana.htm

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/justica-de-sp-manda-soltar-homem-que-foi-condenado-injustamente-por-abusar-sexualmente-dos-filhos.ghtml?utm_source=facebook&utm_medium=share-bar-desktop&utm_campaign=share-bar

https://portal6.com.br/2018/03/03/homem-acusado-injustamente-de-abusar-dos-filhos-e-solto-pela-justica/

sábado, 27 de janeiro de 2018

Qual a diferença entre homens e mulheres? - parte 3

Tenho falado até agora das diferenças principais, que parecem ser o núcleo da masculinidade e feminilidade, mas há outras menos impactantes.

Uma delas é que homens tendem a formar grupos maiores que as mulheres, estabelecem hierarquias formais naturalmente e tendem a competir como uma forma de se aproximarem emocionalmente. As mulheres parecem preferir grupos menores, não estabelecem hierarquias (ou pelo menos, parecem não estabelecer e, quando estabelecem, elas são mais fluídas) e usam a cooperação como forma de aproximação emocional.

Uma teoria do porquê isso ocorre está relacionado aos níveis de testosterona no cérebro. Em geral, quanto mais testosterona, mais competitiva é uma pessoa e mais ela busca por status. Isso pode ser comprovado através das hienas, pois a fêmea possui mais testosterona que o macho e os comportamentos estereotipados de cada gênero é o oposto do esperado nos mamíferos.

Outro possível motivo é que essas características foram selecionadas ao longo da história evolutiva. Como as mulheres estavam constantemente engravidando, elas precisavam gastar muito tempo cuidando das crianças. Competir para ver quem cuida melhor de crianças não é tão eficiente quanto cooperar para que todas cuidem das crianças, além de ser mais fácil se forem formados grupos menores sem hierarquias (ninguém gosta de ter alguém gritando no seu ouvido como criar seu filho).

Por outro lado, os homens ficavam responsáveis pela produção material e competições são ótimas para incentivar as pessoas a criarem e produzirem coisas novas e em maior quantidade. Grupos maiores conseguem realizar tarefas que grupos pequenos não conseguem e a hierarquia (um manda e os outros obedecem) ajuda a evitar que o grupo gaste muito tempo em discussões em que há divergências.

Essas diferenças contribuem para que homens e mulheres vejam o mundo de forma diferente, se relacionem de forma diferente com o mundo e acabem se desentendendo. O que acha de diminuir esse desentendimento passando uma manhã comigo para discutirmos isso melhor?

Fontes:
Baumeister, R. (2010). Is there anything good about men?: How cultures flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press

Farrell, W. (2014). The myth of male power: why men are the disposable sex (Ebook Kindle). Original de 1993

Gilmore, D. D. (1990). Manhood in the making: cultural concepts of masculinity. New Haven, NY: Yale University Press

Kiselica, M. S. (2010). Promoting positive masculine while addressing gender role conflict: a balanced theoretical approach to clinical work with boys and men. In: C. Blazina & D. S. Shen-Miller (Ed.). An international psychology of men (pp. 127-156). New York: Routledge


sábado, 13 de janeiro de 2018

Diferenças entre homens e mulheres - parte 2


Terminamos 2017 falando sobre a teoria E-S e diferenças de motivação entre os sexos e retomaremos em 2018 continuando daí.

Falei da teoria E-S porque, juntando tudo que sei sobre a masculinidade e a feminilidade, parece que o "coração" das diferenças de gênero consiste numa tendência inata de homens prestarem mais atenção em coisas mecânicas e pragmáticas, enquanto a atenção feminina tende a focar em pessoas e relacionamentos.

Chamo de tendência porque, como tudo no estudo de seres vivos, essa regra não é absoluta. Há pessoas que, por razões desconhecidas, parecem ter a preferência invertida. Essas pessoas tendem a se comportar e fazer escolhas consideradas estranhas para o seu próprio sexo, mas, ao contrário do que possamos pensar, não significa necessariamente que sejam homossexuais.

Isso pode ser observado já no primeiro dia de vida. Coloque o/a bebê deitada e, de um lado, coloque uma boneca ou algo que lembre um rosto humano. Do outro lado, coloque algo que não lembre um humano, como um carrinho. Agora, cronometre quanto tempo o/a bebê fica olhando para cada objeto. Quase sempre, o menino passará mais tempo olhando para o carrinho que para a boneca, e o contrário ocorrerá com a menina. Essa diferença é estatisticamente significativa.

Há quem defenda que a diferença seja ensinada, mas isso parece improvável se considerarmos que ela já está presente muito antes do/a bebê aprender que as pessoas são diferenciadas em dois sexos ou do adulto ter tempo de ensinar a criança o que é "coisa de menino" e o que é "coisa de menina". Além disso, se você repetir esse experimento com alguns animais, principalmente outros primatas, você terá praticamente o mesmo resultado, reforçando a hipótese de que essa tendência não é aprendida.

A ideia de que todas as diferenças são resultantes apenas da criação é tentadora, pois queremos acreditar que podemos controlar quem nossos filhos e filhas serão. Que as crianças não passam de tábulas rasas esperando que lhes programemos para ser de um jeito ou de outro, mas, precisamos aceitar que só podemos influenciar os outros até certo ponto. Podemos não perceber ou não querer acreditar, mas os bebês já nascem com vontade própria, já tem uma opinião sobre o que gostam e o que não gostam e, como toda opinião, ela pode ser alterada, mas não há garantias.

Para saber mais, inscreva-se para ser notificado de novas postagens, leia meu ebook ou compareça no meu workshop.


Fontes:

Baumeister, R. (2010). Is there anything good about men?: how cultures flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press.
Menezes, A. B. de C., & Brito, R. C. S. (2013). Diferenças de gênero na preferência de pares e brincadeiras de crianças. Psicologia: reflexão e crítica, 26(1), 193-201. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79722013000100021&lng=en&nrm=iso>.
Menezes, A. B. de C., Brito, R. C. S., Figueira, R. A., Bentes, T. F., Monteiro, E. F., & Santos, M. C. (2010). Compreendendo as diferenças de gênero a partir de interações livres no contexto escolar. Estudos de Psicologia (Natal)15(1), 79-87. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/epsic/v15n1/11.pdf>.
Menezes, A. B., Brito, R. C. S., & Henriques, A. L. (2010). Relação entre gênero e orientação sexual a partir da perspectiva evolucionista. Psic.: teor. e pesq., 26(2), p. 245-252. Doi: https://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722010000200006

Primeiro episódio de “Hjernevask” (Levagem cerebral). Criação: Harald Eia e Ole-Martin Ihle. Noruega: NRK1, 2010. (38min 51s). Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=sIgH7Hlsbag>.
Documentário "Science of men" (Ciência de homens). Criação: Anna Fitch. Estados Unidos: National Geographic, 2008

sábado, 9 de dezembro de 2017

Quais as diferenças entre homens e mulheres - parte 1

Uma pergunta que assola a humanidade a milênios é "quais as diferenças (não-físicas) entre homens e mulheres"?

As primeiras teorias eram muito vagas, como a teoria Yin-Yang chinesa, ou resumiam-se em generalizações do que as pessoas percebiam baseadas em diferenças físicas e sociais, sem se preocupar em verificar se tais percepções eram são verdadeiras. Por exemplo, é dever do homem lutar para proteger as mulheres e crianças (ou pilhar os bens de que precisavam para sustentar suas famílias), e eles eram treinados desde a infância para serem guerreiros, logo, características relacionadas a combates deveriam ser masculinas.

Mas hoje pensamos "até que ponto essas diferenças foram criadas por nós mesmos"? O antropólogo David D. Gilmore, em sua obra prima Manhood in the Making, apresenta dados que parecem indicar que as diferenças são ativadas diante de ambientes hostis, decorrentes das limitações impostas a sexo para gerarmos descendentes. Quanto mais hostil o ambiente, mais forte a pressão para que cada sexo desempenhe tarefas específicas para sobreviver (o que ficou conhecido como machismo/patriarcado). Quanto menos hostil, mais livres as pessoas são para viverem como quiserem.

Entretanto, há algumas diferenças quase imperceptíveis que parecem se reproduzir independente do ambiente, às vezes, pouco depois do nascimento e que, embora não sejam exclusivas de um sexo, parece que há uma clara tendência para que cada sexo tenha uma característica específica.

As características mais estudadas são o melhor desempenho de homens em testes que envolvem habilidades espaciais (tirando memória espacial) enquanto mulheres têm melhores habilidades comunicativas. Baron-Cohen e seu trabalho com pessoas com Síndrome de Asperger foi, talvez, a primeira mudança para uma compreensão mais ampla. Ele criou a teoria E-S (Empathising-Systemising, algo como "empatização-sistemação"). Segundo essa teoria, podemos pensar o funcionamento do cérebro como dois eixos perpendiculares, sendo que um eixo representa nossa capacidade de identificar as emoções e pensamentos de uma pessoa e responder apropriadamente a eles, e o outro representa nossa capacidade de compreender como um sistema funciona e a criar novos sistemas. Algumas pessoas têm ambas as habilidades equilibradas, mas a maioria dos homens é significativamente melhor em compreender sistemas, enquanto a maioria das mulheres é melhor em compreender pessoas.

Outra teoria mais recente, e que acredito ser muito melhor e perfeitamente exemplificada no livro Is there anything good about men?, de Roy Baumeister, defende que homens e mulheres não possuem diferenças com relação às suas habilidades, mas com relação às suas motivações, o que afeta como suas habilidades são usadas. Dessa forma, não se trata de compreender melhor pessoas ou sistemas, mas de preferência por relacionamentos x preferência por funcionamento; empatia emocional x empatia de ação; que falarei com mais detalhes, no próximo artigo.

Referências

BARON-COHEN, S. The extreme male brain theory ofautism. TRENDS in cognitive sciences, [s. l.], v. 6, n. 6, p. 248-254, Junho 2002.
BAUMEISTER, R. F. Is there anything good about men?: How culture flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press, 2010. 
GILMORE, D. D. Manhood in the making: cultural concepts of masculinity. New Haven, NY: Yale University Press, 1990.
KISELICA, M. S. Promoting Positive Masculinity While Addressing Gender Role Conflict: A Balanced Theoretical Approach to Clinical Work with Boys and Men. In: BLAZINA, C.; SHEN-MILLER, D. S. (Ed.). An international psychology of men. New York: Routledge, 2010. Cap. 5, p. 127-156.

sábado, 18 de novembro de 2017

Como está a situação do homem e o que esperar para o futuro?

Esse tema foi sugerido pelo Carlos Lira na página do facebook e é, talvez, o tema que mais interessa os leitores desse blog.

Um dos métodos considerados mais eficazes para entender os valores coletivos é a análise de histórias populares, comerciais e afins. Um dos estudos mais surpreendentes descobriu que em comerciais com um homem e uma mulher, no qual um dos dois é retratado como um idiota ou perde uma competição, o perdedor ou idiota é o homem em 100% dos casos. Esse é um resultado chocante, pois é tecnicamente impossível obter 100% em um estudo envolvendo humanos e, ainda assim, aconteceu. Desde então, diversos outros pesquisadores têm repetido o estudo e sempre encontraram o mesmo resultado.

Outro exemplo de uma mídia com público específico, mas que acredito que reflita a forma como a sociedade em geral percebe o homem é a história em quadrinhas de Thor, personagem da Marvel baseado na divindade nórdica de mesmo nome. Na cultura nórdica, o martelo de Thor (Mjolnir) representava a masculinidade e amuletos representando-o eram usados para conferir fertilidade às mulheres e proteção. Contudo, nos quadrinhos, ele não só deu a uma mulher os poderes de Thor, como impedi-a de se curar de seu câncer. O que antes gerava e protegia a vida, agora é uma fonte de poder autodestrutiva.

Sócrates Nolasco escreveu um livro sobre a mudança que ocorreu no último século do ideal de masculinidade ser associado a personagens fortes, como Tarzan, e que hoje é associado a Homer Simpson. Farrell compara o ideal pré-feminista com o programa de comédia Father knows best (papai sabe o melhor) e diz que o ideal atual é Father molest (papai abusa).

Aquele que, para mim, representa o melhor exemplo da situação atual da masculinidade são os filmes de Shrek. Shrek é retratado como um porco, rabugento, muito gentil, mas que está sempre tentando passar a impressão de ser mau. Ele acaba se apaixonando por uma mulher que corresponde aos ideais de beleza e que, apesar de demonstrar ter as qualidades para ser independente (cena em que Robin Hood tenta "salvá-la" de Shrek), precisa ser salva de seu castelo-prisão. Além disso, apenas depois de Shrek se declarar, sua "verdadeira" forma é revelada.

Ele acaba se tornando amigo de um burro tagarela, um gato galeanteador, um mentiroso cara-de-pau, um lobo que come menininhas e um menino doce (homem-biscoito). Shrek é frequentemente retratado como egoísta, mau-educado e irresponsável, como em Shrek 3 e, principalmente, em Shrek 4ever. Fiona, por outro lado, é sempre retratada como forte, decidida e sensata.

O que esperar para o futuro? Difícil dizer. Acredito que, inicialmente, a situação piorará muito, para só depois de algumas gerações melhorar. Contudo, como vivemos na era da informação e das mudanças rápidas, a melhora pode chegar muito antes de minha previsão. O fato é que, considerando que a tecnologia está tornando a força física cada vez mais desnecessária, os trabalhos cada vez mais seguros e as mulheres tendo cada vez menos filhos e em idade cada vez mais avançada, a tendência que as diferenças entre homens e mulheres diminuam e o modelo antigo seja completamente abandonado, pelo menos, até que alguma tragédia ocorra.

Discuto isso com mais detalhes no meu ebook, também disponível em versão impressa no site em inglês da Amazon. Se gostou desse post, curta, compartilhe e deixe seus comentários. Se gostou do livro ou ebook, lembre-se de deixar sua avaliação.

Referências

Baumeister, R. (2010). Is there anything good about men?: How cultures flourish by exploiting men. New York, Oxford University Press.

Farrell, W. (2001). Father and child reunion: How to bring the dads we need to the children we love. New York, Tarcher.

Moraes, Y. L. (2017). Ser homem ou não ser?: O que é ser homem no início do século XXI. [s.l.], independently publisher.

Nolasco, S. (2001). De Tarzan a Homer Simpson: Banalização e violência masculina em sociedades contemporâneas ocidentais. Rio de Janeiro, Rocco.

sábado, 28 de outubro de 2017

Violência contra o homem

Hoje em dia, é aceito por psicólogos(as) que negros e pobres cometem mais crimes por serem "minorias", por serem "socialmente marginalizados", e que o vandalismo ou crimes cometidos por adolescentes sejam um pedido de ajuda, um sintoma geralmente desencadeado por situações de vulnerabilidade. Entretanto, quando consideramos que a maioria dos crimes e atos violentos são cometidos por homens, tendemos a ter duas reações: dizer que isso é esperado, pois homens são mais violentos, ou dizer que isso é resultado da cultura machista, que educa homens para serem dominantes e usam da violência para demonstrar seu poder. (Farrel, 1993/2014)
Você aceitaria se disséssemos que a maioria dos crimes são cometidos por negros, pobres e adolescentes porque isso é apenas uma característica normal desses grupos ou que isso é uma demonstração de seu poder?

Por outro lado, o que acontece quando consideramos o contrário? Quando consideramos que homens são maioria das vítimas de violência (Mapa da Violência, 2015, 2016) e que também sofrem violência na intimidade (ou conjugal ou doméstica, ou como prefira chamar) (Zaleski, Pinsky, Laranjeira, Ramisetty-Mikler & Caetano, 2010). Acho lamentável quando pessoas, algumas vezes "especialistas em violência", dizem que essas situações são menos importantes porque são "homens batendo em outros homens" ou que "esses casos são minoria".

Se alguém te dissesse que uma mulher foi vítima de um crime e o crime não será levado a sério porque o autor do crime é outra mulher, você consideraria isso aceitável? O número de casos de morte de mulheres em episódios de violência doméstica não é nem 10% do número total de homicídios. Você aceitaria se esse fato fosse usado como justificativa para não haver mais estudos sobre violência doméstica, para acabar com todas as delegacias da mulher e ONGs que lutam contra a violência contra a mulher? Se a resposta é não para ambas as perguntas, você também não deve aceitar a violência contra o homem, independente do sexo do perpetrador ou da quantidade de vítimas.

Na verdade, vários autores defendem que a violência doméstica contra o homem é tão comum quanto a violência contra a mulher, mas existe um viés tão forte de pesquisadores e dos meios de divulgação em retratarem a mulher como vítima, que violência doméstica se tornou sinônimo de violência contra a mulher, decorrente de um desejo masculino de oprimir a mulher, quando, na verdade, é causada por problemas na dinâmica do casal, pela dificuldade de se colocar no lugar do outro, de negociar as diferenças, pela incompatibilidade de objetivos e pela ausência de uma cultura de responsabilidade mútua. (Alvim & Souza, 2005; Andrade, 2008; Farrell, 1991; 1993/2014; Oliveira & Souza, 2006; Strauss, 2007; Zaleski et al., 2010).

O único estudo brasileiro que encontrei que quantificou tanto as vezes que homens quanto as vezes que mulheres estiveram envolvidos em casos de violência por parceiro íntimo, tanto no papel de agressor quanto no vítima, foi o de Zaleski et al (2010), que, conforme pode ser observado no quadro abaixo, encontra valores próximos de perpetração e vitimização para os dois sexos.

Prevalência de violência por parceiros íntimos nos últimos 12 meses. Brasil, 2005-2006 (Zaleski et al., 2010, p. 57)
Variável
Masculino n=631
Feminino n=814
X²(df)
Qualquer tipo de violência íntima (incluindo mútua, somente perpetração e somente vitimização)
10,7%
14,6%
4,76(1)*

Perpetração
Vitimização
Perpetração
Vitimização

Atos leves





Jogar algo
2,2%
3,4%
6,0%
2,7%

Empurrar, agarrar ou sacudir
7,4%
4,1%
9,3%
6,3%

Tapa
3,2%
4,2%
6,0%
3,9%

Atos graves





Chutar ou morder
0,9%
1,4%
2,2%
1,2%

Bater com algo
1,6%
2,9%
5,5%
2,2%

Queimar
0,0%
0,1%
0,0%
0,1%

Sexo forçado
0,8%
0,3%
0,6%
1,2%

Ameaçar com faca
0,4%
1,5%
1,2%
0,9%

Usar faca/arma de fogo
0,2%
0,9%
0,2%
0,3%

Tipo de violência





Mútuo
5,3%
6,3%

Somente perpetração
3,9%
5,7%

Somente vitimização
1,5%
2,6%

Sem violência
89,3%
85,4%

* p <0,05.

Se você gostou, curta, compartilhe, deixe seu feedback nos comentários e inscreva-se para receber atualizações. Você também pode me acompanhar pelo Facebook e YouTube.

Obra citada não disponível online
Farrell, W. (1991). Por que os homens são como são (trad. Paulo Froes). Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.

sábado, 14 de outubro de 2017

A agressividade é uma característica masculina? - quando o homem também é abusado

A violência costuma ser vista como uma característica masculina (Farrell, 1993/2014; Moore & Gillette, 1993; Nolasco, 2001), a ponto de ter surgido a ideia de que “todas as guerras foram criadas por varões”, entretanto, Farrell (1991) diz-nos que homens lutarem nas guerras não os tornam mais culpados pela criação das guerras que o papel feminino em educar os filhos para serem soldados.
Contudo, os estudos sobre violência tendem a ser tratados como assexuados, isso é, como se o gênero não interferisse nada, apesar de homens serem a maioria dos agressores e dos agredidos, às vezes, quase 10x mais que mulheres (Farrell, 1991, 1993/2014; Nolasco, 2001; Mapa da Violência, 2015a, 2015b). O sexo/gênero só costuma ser levado em consideração nos estudos de violência na intimidade e agressão sexual, quase sempre numa dicotomia rígida, em que o homem é o agressor e a mulher a vítima, igualando violência na intimidade e agressão sexual com "violência do homem contra a mulher (Alvim & Souza, 2005; Andrade, 2008; Farrell, 1991, 1993/2014; Oliveira & Souza, 2006; Straus, 2007; Zaleski, Pinsky, Laranjeira, Ramisetty-Mikler & Caetano, 2010).
Ouvindo o relato do Marlon, sobre como ele foi abusado na infância, acredito que já tenha passado da hora em entrarmos nesse assunto: homens também podem ser vítimas de violência na intimidade e abuso sexual. Estudos indicam que a diferença entre vítimas masculinas e femininas nem é tão grande, a diferença é o número de denúncias. Assim, tais tipos de violência não se configurariam como "violências de gênero", causadas pelo desejo masculino de oprimir a mulher, até porque tais diferenças também ocorrem em relacionamentos homossexuais, mas seriam, antes de tudo, dificuldades em negociar diferenças (Alvim & Souza, 2005; Andrade, 2008; Farrell, 1993/2014; Oliveira & Souza, 2006).
Oficialmente, a maioria dos abusadores sexuais de homens são outros homens, o número de mulheres abusadoras pode ser muito maior, dado que muitas pessoas acreditam que ser abusado é o mesmo que ser penetrado a força ou por considerarem que homens têm "sorte" de terem relações heterossexuais tão precocemente.
No estudo de French, Tilghman e Malebranche (2014), com 282 jovens do sexo masculino, estudando no Ensino Médio ou Faculdade, encontrou que 120 deles (43%) sofreram, pelo menos, uma forma de coerção sexual: "pressão verbal" (31% da amostra), "sedução indesejada" (26%), "intercurso completado" (21%), "beijo/carícia" (18%), "força física" (9%), "uso de substâncias" (7%) e "tentativa de intercurso" (3%).
Segundo a revisão feita por Zimmermann (2012), mulheres abusadoras sexuais tendem a ser divididas em quatro categorias: 1) abusadoras intergeracionais: o tipo mais comum, tendem a abusar de crianças, precocemente, sendo mais comum que comece abusando da própria prole. É comum que esse tipo de mulher vem de uma filha em que abusos sexuais de crianças são comuns; 2) professora/amante: costuma ser uma mulher adulta que tem relações sexuais com um adolescente ou criança pré-púbere. É comum que as pessoas vejam esse tipo de relação como uma fantasia comum dos garotos e, portanto, inofensiva, uma forma de iniciação sexual. Entretanto, o interesse da mulher costuma ser mais a exploração de um desequilíbrio de poder (poder manipular o garoto) do que um interesse romântico/sexual; 3) mulheres coagidas pelo marido: são mulheres que, por causa de um companheiro, abusaram ou facilitaram que seu companheiro abusasse de uma criança. Apesar de terem iniciado o abuso por causa do companheiro, muitas continuam abusando mesmo sem a presença dele; 4) experimentadora-exploradora: fazem parte dessa categoria a maioria das adolescentes que abusam sexualmente de crianças. São garotas que desejam uma relação sexual e, não conseguindo ter uma experiência com um companheiro de sua idade, buscam essa experiência com crianças que podem dominar, geralmente um irmão mais novo ou uma criança da qual é babá.
Do outro lado do espectro, a revisão do mesmo autor identificou cinco tipos de pais abusadores: 1) sexualmente preocupados: têm um interesse sexual obsessivo pela prole, às vezes, desde o nascimento. É comum que tenham sido abusados sexualmente quando crianças; 2) regridem à adolescência: só se interessam pela prole quando ela entra na adolescência; 3) buscam autossatisfação: veem seus descendentes como meros instrumentos para obter autossatisfação; 4) emocionalmente dependentes: usam sua progênie para obterem relacionamentos amorosos que objetivam a proximidade, companhia e amizade; 5) vingativos raivosos: têm raiva do abusado, geralmente, por exigir muita atenção de sua companheira.

Se você gostou, curta, compartilhe, deixe seu comentário e siga-nos no YouTube.

Obras citadas não disponíveis online:


Farrell, W. (1991). Por que os homens são como são (trad. Paulo Froes). Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.

Farrell, W. (1993/2014). The myth of male power: why men are the disposable sex. Dr. Warren Farrell, 1993/2014. Edição Ebook Kindle

Moore, R., & Gillette, D. (1993). Rei guerreiro mago amante. (Trad. Talita M. Rodrigues). Rio de Janeiro: Campus.


Nolasco, S. (2001). De Tarzan a Homer Simpson. Rio de Janeiro: Rocco.

sábado, 30 de setembro de 2017

Final Fantasy XIV: pai depressivo - uma história de amor masculino

Recentemente, chegou ao Netflix brasileiro, a série Final Fantasy XIV: dad of light (Fantasia Final 14: pai de luz), que conta a história de um garoto japonês (Akio) com dificuldade de se relacionar com seu pai. Um dia, seu pai misteriosamente diz ter pedido demissão e não procurará um novo emprego. Ele simplesmente decidiu se aposentar mais cedo. Numa tentativa de descobrir o motivo da demissão misteriosa e recuperar o vínculo pai-filho, o jovem Akio ensina seu pai a jogar o MMORPG (Massive Multiplayer Online Role Play Game) Final Fantasy XIV e, secretamente, se torna amigo dele dentro do jogo, agindo como um tutor e comprometendo-se a só revelar a sua verdadeira identidade após derrotar Twintania.

Pode parecer bobagem dizer que você e seu pai quase não conseguem conversar e tentar se aproximar dele através de um jogo online, mas essa é uma história real. Como é de se esperar, parece que há algumas diferenças entre o exibido na série e a história real e, apesar de minha ignorância em japonês e o tradutor online não ajudarem muito em saber a diferença entre realidade e ficção, o projeto hikari no otösan (pai de luz) foi uma tentativa real de aproximação entre pai e filho que durou 10 meses jogando Final Fantasy XIV e divulgada no blog pessoal do filho (até agora, só consegui identificá-lo como "Ichigeki Kakusatsu SS Nikki" ou Mydie) se transformou em livro e na série original do Netflix.
Realidade ou ficção, pretendo ter como foco o personagem Hirotaro Inaba (o pai) e fazer uma análise dele e de como podemos aprender mais sobre a masculinidade. A partir de agora, haverá spoilers. Se você ainda não assistiu e não gosta que te digam o que acontece nas suas séries, filmes e livros, pare agora, vá assistir e depois volte.

O sr. Inaba tem o perfil geralmente chamado de "pai tradicional", muito ocupado com o trabalho, quase não passa tempo com a família, emocionalmente frio e distante. Aqueles que acreditam que seus pais não foram "pais carinhosos" certamente devem achar o próprio pai e o Sr. Inaba muito parecidos. O foco no trabalho e distância emocional, com o tempo, tornaram o sr. Inaba e o próprio filho em dois estranhos, de forma que eles não conseguem nem ter uma conversa superficial.

Akio sente a necessidade de entender melhor seu pai, mas não consegue uma conversa franca. Então, após ser aconselhado pelos seus amigos de FF14, compra um PlayStation 4, o jogo FF14 e ensina o básico a seu pai. Após isso, corre para o próprio quarto e tenta tornar-se amigo do próprio pai, sem que ele descubra sua real identidade.
Akio e Hirotaro (Maidy e Indy) conseguem se conectar e, por ser menos vergonhoso (e mais fácil) falar de suas fraquezas para um estranho que para aqueles que amamos, Akio descobre que seu pai pediu demissão por estar doente, uma doença que pode matá-lo se não operar e mesmo a operação não é garantia de sobreviver. Com essa notícia, o Sr. Inaba não conseguia mais ter um objetivo de vida, nada para ele fazia mais sentido. Ao que me parece, ele estava com Depressão.

Mas através do jogo, ele encontrou pessoas que pareciam se importar com ele, que o ajudavam e que precisavam de ajuda. Juntos, eles enfrentavam desafios, ficavam mais fortes, compartilhavam a alegria da vitória, consolavam-se na derrota e discutiam estratégias. Isso é importante se considerarmos as qualidades masculinas, das quais destaco: orientação para grupos, empatia de ação e formação de vínculos através de atividades e objetivos comuns.

O desenrolar da história me leva a crer que Akio conseguiu curar a Depressão de seu pai, o que não significa que jogos online curam depressão, mas através do jogo, ele conseguiu estabelecer um relacionamento verdadeiro com seu pai, dando-lhe um novo sentido para a vida e restaurando sua vontade de viver.

Mas eu gostaria de chamar a atenção para os sintomas do sr. Inaba que, a primeira vista, não existem. Quando se fala em Depressão, costumamos pensar nos casos extremos, aquelas pessoas que não conseguem sair da cama, que choram por qualquer coisa, casos reais, mas raros. Muitos sofrem de uma Depressão mais silenciosa, uma distimia talvez, como a do sr. Inaba. Parece que a pessoa apenas não quer falar, é apenas seu jeito de ser, é apenas uma fase, e, às vezes, é realmente apenas isso, às vezes, é algo mais. Se Akio não tivesse feito seu pai jogar FF14 e se tornado seu amigo virtual, talvez, o sr. Inaba nunca teria feito a cirurgia e teria morrido, deixando um filho magoado por nunca ter entendido seu pai.

sábado, 16 de setembro de 2017

Trabalho e suicídio - quanto vale a vida do homem?

O trabalho é tão importante para os homens que o desemprego e a aposentadoria aumentam as chances de homens se suicidarem, mas não têm o mesmo efeito em mulheres.

Isso porque, em praticamente todo o mundo, ser um produtor é condição indispensável para que o homem seja digno de ser respeitado e amado. Ser um "homem de verdade" é, geralmente, associado com a capacidade de sustentar a si mesmo, à sua família e, se possível for, por que não o bairro ou uma instituição. No Japão, por exemplo, a vida de um homem é considerada inútil e desonrada se não estiver a serviço dos outros.

Para eles, uma vez que é impossível vivermos sozinhos, pelo menos nos primeiros anos de vida, todos temos uma dívida com a sociedade, dívida que só pode ser paga ao morrer protegendo, sustentando e cuidando dos outros. Não é a toa que as cartas e documentos deixados pelos pilotos kamikaze demonstram um tom de orgulho e alegria em serem escolhidos para se suicidarem em combate. Porque assim, sua dívida estaria paga.

Tal mentalidade é tão forte que, mesmo nesses tempos de "equidade", educamos as mulheres para trabalharem e serem independentes, poderem comprar suas roupas, maquiagens e afins sem terem de pedir dinheiro para o marido, mas ainda dizemos aos nossos filhos que eles devem procurar um "bom emprego" (o que geralmente significa um emprego que pague muito) para constituir uma família.

Assim, para o homem, o desemprego nunca é um simples contratempo econômico ou problemas financeiros, mas ao não ter emprego, o homem também costuma perder a sua própria identidade de homem, algo que, psicologicamente, pode explicar o aumento de casos de disfunção erétil (impotência sexual) em homens desempregados.

BAUMEISTER, R. F. Is there anything good about men?: How culture flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press, 2010. Cap. 9-10, p. 187-220.

FARRELL, W. Por que os homens são como são (tradução de Paulo Froes). Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991.

______. The myth of male power: why men are the disposable sex. [s.l.]: Dr. Warren Farrell, 1993/2014. Ebook Kindle.

GILMORE, D. D. Action and ambiguity: east and South asia. In: ______. Manhood in the making: cultural concepts of masculinity. New Haven, NY: Yale University Press, 1990. Cap. 8, p. 169-200.

QIN, P.; AGERBO, E.; MORTENSEN, P. B. Suicide risk in relation to socioeconomic, demographic, psychiatric, and familial factors: a national register-based study of all suicides in Denmark, 1981-1997. The American journal of Psychiatry, [s.l.], v. 160, n. 4, p.765-772, 2003. Disponível em < http://ajp.psychiatryonline.org/doi/full/10.1176/appi.ajp.160.4.765>. Acessado em 10 de setembro de 2017.

sábado, 19 de agosto de 2017

Masculinidade em construção

Hoje abordaremos um livro clássico, "Manhood in the making" (Masculinidade em construção) é o livro mais famoso do antropólogo David D. Gilmore e, provavelmente, o estudo mais completo sobre a masculinidade em diferentes sociedades. Nesse livro, o autor reuniu tudo o que conseguiu sobre o que cada sociedade considera "um homem de verdade" e por que, resultando numa análise aprofundada de 11 sociedades mais uns pedaços de outras.
Essa obra tende a ser odiada por defensores da teoria de que gênero é uma construção social e que existem múltiplas masculinidades e feminilidades (por exemplo, Pleck, 1995). A razão segundo eles é que Gilmore defende um essencialismo universal e imutável do que é homem e o que é mulher. Entretanto, eu li o livro e não vi nada de essencialismo. Na verdade, o autor deixa bem claro, logo na página 3, que acredita ser a cultura mais importante, apresentando prós e contras das teorias psicanalíticas, evolucionistas e marxistas. 

Gosto desse livro, principalmente, por ser uma verdadeira análise de diferenças culturais. Não é que nem os incontáveis "sabe-tudo" que dizem ter comparado diferentes culturas, entendendo "diferentes culturas" por "São Paulo x Bahia", "Brasil x EUA" ou "filósofos do século XX vs Platão". O autor compara os habitantes de Andaluzia (região da Espanha),  os índios meinacos (estado do Mato Grosso), japoneses, sambianos (Papua Nova-Guiné), judeus, americanos, o povo masai (Quênia e Tanzânia), o povo semai (Malásia) e outros
O livro é iniciado com algo que não é novidade para quem já leu alguma coisa sobre diferentes culturas: a divisão sexual de papéis parece ser a mesma em praticamente todo o mundo. Segundo o autor, apesar de haver diferenças culturais, as semelhanças são mais frequentes e, a medida que vai analisando os ideais de masculinidade e as explicações dadas por cada povo, vai concluindo essa divisão de papel têm íntima conexão com desafios comuns a quase todos os povos. A divisão de papéis, para Gilmore, parece ser uma estratégia de sobrevivência que busca conciliar duas forças, geralmente, opostas: nossos desejos individuais e as demandas sociais/ambientais.
Para entendermos os ideais de masculinidade é preciso ter em mente que "uma sociedade pode sobreviver à perda de homens mais facilmente que à perda de mulheres" (Friedl, 1975, p. 135 apud Gilmore, 1990, p. 121). Isso porque as mulheres só podem ter um ou dois bebês por ano, mas os homens podem ter um quantidade quase ilimitada, desde que hajam mulheres disponíveis. Além do mais, a gestação e lactação atrapalham a mulher em certas atividades. Por essa razão, acaba sobrando aos homens os trabalhos mais perigosos e que, se tiverem escolha, jamais aceitariam.
Sendo assim, as sociedades precisam obrigar os homens a assumirem tais tarefas através do que Farrell (1986) chama de "suborno social": se eles não desempenharem seus papéis com competência, serão ridicularizados, marginalizados e lhe serão negadas o status de "homens de verdade" (essas três consequências sendo consideradas piores que a morte). Por outro lado, se eles desempenharem com eficiência, serão admirados e amados, além de receberem vários benefícios, como o direito de ter quantas esposas quiserem.
Para isso, o status de "homem de verdade" consiste de um estado artificial (não adquirido naturalmente, mas induzido culturalmente), que precisa ser ganho contra poderosas adversidades, pode ser perdido e consiste em uma atuação pública. Apesar das diferenças culturais, há três elementos quase sempre presentes: engravidar mulheres, proteger seus dependentes e sustentar amigos e parentes; tarefas que exigem liberdade de ação.
Um exemplo notável é do povo Samburu (Quênia), no qual um homem de verdade deve ter como objetivo se tornar um patrono tribal. Para isso, devem ser criadores de gado eficientes e, no passado, guerreiros habilidosos. Com a colonização, a guerra não é mais permitida, mas os jovens ainda fazem competições de altruísmo para ganhar status. Um homem de verdade deve dar mais que receber e aquele que consegue dar mais, recebendo menos é mais homem que o inverso. Também é fundamental que tenha virtudes como assertividade e destemor. Por fim, para os Samburus, um homem ser dependente de alguém, seja outro homem ou mesmo uma mulher, é considerado um atentado contra a própria honra.
Outro exemplo é o Japão, em que ser "homem de verdade" consiste em viver para o coletivo, sem jamais reclamar. Assim, as virtudes de um homem são a coragem, determinação, responsabilidade, papel ativo nas relações econômicas e sexuais, autonomia e "jogo de cintura". Quem está acostumado a assistir animes estilo shonen já deve ter percebido que o protagonista é aquele que "recebe os sentimentos" de seus amigos e protege o mundo não por glória ou por ser um idiota que gosta de correr perigos, mas porque tem o poder e habilidade de proteger aquilo que seus amigos amam.
Como muitos podem tentar argumentar, existem exceções. O povo semai e os taitianos são exceções e são geralmente vistos como exemplos de sociedades em que não há divisão de gênero. Isso é verdade, mas também é verdade que eles são um povo que não precisam arriscar a vida para obter comida, água ou matéria-prima para seus utensílios. Tudo que precisam existe em abundância e é de fácil obtenção. Também não precisam se preocupar em defender mulheres e crianças de ataques de animais ferozes ou em guerras, pois esses não existem ou é fácil de fugir e sobreviver. Consequentemente, não há necessidade dos homens competirem entre si, a economia é totalmente cooperativa e a ambição é desencorajada.
Entretanto, Gilmore encontrou relatos de pessoas desses povos que pareciam questionar a masculinidade de algum outro integrante. Assim, ideologias de masculinidade também existem entre esses povos, eles apenas não dão tanta atenção quanto aqueles que dependem de tais ideologias para sobreviver.

Concluindo, os papéis sexuais, principalmente esses que nós aprendemos a chamar de "papéis tradicionais", "hegemônicos" e/ou "machistas", consistem de adaptações a ambientes sociais com o objetivo de superar adversidades ambientais e escassez de recursos, preparando os homens para defender seu povo e sua família, a suportar os desafios de trabalhar, além de ser esperado por ambos os sexos. Tais papéis devem ser desempenhados de forma pública para garantir a estabilidade, segurança e poder coletivo do grupo, sendo o fracasso punido com a perda de sua identidade de gênero/sexual. Aqueles que desejam o desaparecimento de tais ideologias devem ser capazes de assumir o papel que tais ideologias desempenharam ao longo de incontáveis séculos.

Obras citadas não disponíveis online
Farrell, W. (1986). Why men are the way they are. Ebook ed. New York: Berkley Books.
Gilmore, D. D. (1990). Manhood in the making: cultural concepts of masculinity. New Haven, London: Yale University Press