Mostrando postagens com marcador diferenças sexuais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador diferenças sexuais. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de janeiro de 2018

Qual a diferença entre homens e mulheres? - parte 3

Tenho falado até agora das diferenças principais, que parecem ser o núcleo da masculinidade e feminilidade, mas há outras menos impactantes.

Uma delas é que homens tendem a formar grupos maiores que as mulheres, estabelecem hierarquias formais naturalmente e tendem a competir como uma forma de se aproximarem emocionalmente. As mulheres parecem preferir grupos menores, não estabelecem hierarquias (ou pelo menos, parecem não estabelecer e, quando estabelecem, elas são mais fluídas) e usam a cooperação como forma de aproximação emocional.

Uma teoria do porquê isso ocorre está relacionado aos níveis de testosterona no cérebro. Em geral, quanto mais testosterona, mais competitiva é uma pessoa e mais ela busca por status. Isso pode ser comprovado através das hienas, pois a fêmea possui mais testosterona que o macho e os comportamentos estereotipados de cada gênero é o oposto do esperado nos mamíferos.

Outro possível motivo é que essas características foram selecionadas ao longo da história evolutiva. Como as mulheres estavam constantemente engravidando, elas precisavam gastar muito tempo cuidando das crianças. Competir para ver quem cuida melhor de crianças não é tão eficiente quanto cooperar para que todas cuidem das crianças, além de ser mais fácil se forem formados grupos menores sem hierarquias (ninguém gosta de ter alguém gritando no seu ouvido como criar seu filho).

Por outro lado, os homens ficavam responsáveis pela produção material e competições são ótimas para incentivar as pessoas a criarem e produzirem coisas novas e em maior quantidade. Grupos maiores conseguem realizar tarefas que grupos pequenos não conseguem e a hierarquia (um manda e os outros obedecem) ajuda a evitar que o grupo gaste muito tempo em discussões em que há divergências.

Essas diferenças contribuem para que homens e mulheres vejam o mundo de forma diferente, se relacionem de forma diferente com o mundo e acabem se desentendendo. O que acha de diminuir esse desentendimento passando uma manhã comigo para discutirmos isso melhor?

Fontes:
Baumeister, R. (2010). Is there anything good about men?: How cultures flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press

Farrell, W. (2014). The myth of male power: why men are the disposable sex (Ebook Kindle). Original de 1993

Gilmore, D. D. (1990). Manhood in the making: cultural concepts of masculinity. New Haven, NY: Yale University Press

Kiselica, M. S. (2010). Promoting positive masculine while addressing gender role conflict: a balanced theoretical approach to clinical work with boys and men. In: C. Blazina & D. S. Shen-Miller (Ed.). An international psychology of men (pp. 127-156). New York: Routledge


sábado, 20 de janeiro de 2018

Como entender homens e mulheres?

Olá, você já deve me conhecer.

Meu nome é Yago e, desde 2013, estudo como funciona a mente masculina, sendo um dos únicos no Brasil com esse foco. Claro que não é possível falar em “mente masculina” sem compararmos com a “mente feminina”. Talvez seja mais correto dizer que estudo as semelhanças e diferenças entre a mente do homem e da mulher.

Afinal, por que parece tão complicado entender o que querem as mulheres? E por que é tão difícil para os homens falarem? A comunicação entre homens e mulheres sempre foi complicada, mas é cada vez mais importante.

Por isso te convido para um encontro que acontecerá no espaço Hayanna, que fica localizado na rua Alzira, 56, Vila Alzira, Santo André, SP, no dia 24 de Março de 2018, um Sábado, às 10h.

Esta é uma rara oportunidade para conhecer novas formas de melhorar nosso relacionamento com aqueles que amamos e de aumentar nosso autoconhecimento.


As inscrições devem ser realizadas pelos telefones (11) 4426-2309 ou (11) 964-566-948.


sábado, 13 de janeiro de 2018

Diferenças entre homens e mulheres - parte 2


Terminamos 2017 falando sobre a teoria E-S e diferenças de motivação entre os sexos e retomaremos em 2018 continuando daí.

Falei da teoria E-S porque, juntando tudo que sei sobre a masculinidade e a feminilidade, parece que o "coração" das diferenças de gênero consiste numa tendência inata de homens prestarem mais atenção em coisas mecânicas e pragmáticas, enquanto a atenção feminina tende a focar em pessoas e relacionamentos.

Chamo de tendência porque, como tudo no estudo de seres vivos, essa regra não é absoluta. Há pessoas que, por razões desconhecidas, parecem ter a preferência invertida. Essas pessoas tendem a se comportar e fazer escolhas consideradas estranhas para o seu próprio sexo, mas, ao contrário do que possamos pensar, não significa necessariamente que sejam homossexuais.

Isso pode ser observado já no primeiro dia de vida. Coloque o/a bebê deitada e, de um lado, coloque uma boneca ou algo que lembre um rosto humano. Do outro lado, coloque algo que não lembre um humano, como um carrinho. Agora, cronometre quanto tempo o/a bebê fica olhando para cada objeto. Quase sempre, o menino passará mais tempo olhando para o carrinho que para a boneca, e o contrário ocorrerá com a menina. Essa diferença é estatisticamente significativa.

Há quem defenda que a diferença seja ensinada, mas isso parece improvável se considerarmos que ela já está presente muito antes do/a bebê aprender que as pessoas são diferenciadas em dois sexos ou do adulto ter tempo de ensinar a criança o que é "coisa de menino" e o que é "coisa de menina". Além disso, se você repetir esse experimento com alguns animais, principalmente outros primatas, você terá praticamente o mesmo resultado, reforçando a hipótese de que essa tendência não é aprendida.

A ideia de que todas as diferenças são resultantes apenas da criação é tentadora, pois queremos acreditar que podemos controlar quem nossos filhos e filhas serão. Que as crianças não passam de tábulas rasas esperando que lhes programemos para ser de um jeito ou de outro, mas, precisamos aceitar que só podemos influenciar os outros até certo ponto. Podemos não perceber ou não querer acreditar, mas os bebês já nascem com vontade própria, já tem uma opinião sobre o que gostam e o que não gostam e, como toda opinião, ela pode ser alterada, mas não há garantias.

Para saber mais, inscreva-se para ser notificado de novas postagens, leia meu ebook ou compareça no meu workshop.


Fontes:

Baumeister, R. (2010). Is there anything good about men?: how cultures flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press.
Menezes, A. B. de C., & Brito, R. C. S. (2013). Diferenças de gênero na preferência de pares e brincadeiras de crianças. Psicologia: reflexão e crítica, 26(1), 193-201. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79722013000100021&lng=en&nrm=iso>.
Menezes, A. B. de C., Brito, R. C. S., Figueira, R. A., Bentes, T. F., Monteiro, E. F., & Santos, M. C. (2010). Compreendendo as diferenças de gênero a partir de interações livres no contexto escolar. Estudos de Psicologia (Natal)15(1), 79-87. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/epsic/v15n1/11.pdf>.
Menezes, A. B., Brito, R. C. S., & Henriques, A. L. (2010). Relação entre gênero e orientação sexual a partir da perspectiva evolucionista. Psic.: teor. e pesq., 26(2), p. 245-252. Doi: https://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722010000200006

Primeiro episódio de “Hjernevask” (Levagem cerebral). Criação: Harald Eia e Ole-Martin Ihle. Noruega: NRK1, 2010. (38min 51s). Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=sIgH7Hlsbag>.
Documentário "Science of men" (Ciência de homens). Criação: Anna Fitch. Estados Unidos: National Geographic, 2008

sábado, 9 de dezembro de 2017

Quais as diferenças entre homens e mulheres - parte 1

Uma pergunta que assola a humanidade a milênios é "quais as diferenças (não-físicas) entre homens e mulheres"?

As primeiras teorias eram muito vagas, como a teoria Yin-Yang chinesa, ou resumiam-se em generalizações do que as pessoas percebiam baseadas em diferenças físicas e sociais, sem se preocupar em verificar se tais percepções eram são verdadeiras. Por exemplo, é dever do homem lutar para proteger as mulheres e crianças (ou pilhar os bens de que precisavam para sustentar suas famílias), e eles eram treinados desde a infância para serem guerreiros, logo, características relacionadas a combates deveriam ser masculinas.

Mas hoje pensamos "até que ponto essas diferenças foram criadas por nós mesmos"? O antropólogo David D. Gilmore, em sua obra prima Manhood in the Making, apresenta dados que parecem indicar que as diferenças são ativadas diante de ambientes hostis, decorrentes das limitações impostas a sexo para gerarmos descendentes. Quanto mais hostil o ambiente, mais forte a pressão para que cada sexo desempenhe tarefas específicas para sobreviver (o que ficou conhecido como machismo/patriarcado). Quanto menos hostil, mais livres as pessoas são para viverem como quiserem.

Entretanto, há algumas diferenças quase imperceptíveis que parecem se reproduzir independente do ambiente, às vezes, pouco depois do nascimento e que, embora não sejam exclusivas de um sexo, parece que há uma clara tendência para que cada sexo tenha uma característica específica.

As características mais estudadas são o melhor desempenho de homens em testes que envolvem habilidades espaciais (tirando memória espacial) enquanto mulheres têm melhores habilidades comunicativas. Baron-Cohen e seu trabalho com pessoas com Síndrome de Asperger foi, talvez, a primeira mudança para uma compreensão mais ampla. Ele criou a teoria E-S (Empathising-Systemising, algo como "empatização-sistemação"). Segundo essa teoria, podemos pensar o funcionamento do cérebro como dois eixos perpendiculares, sendo que um eixo representa nossa capacidade de identificar as emoções e pensamentos de uma pessoa e responder apropriadamente a eles, e o outro representa nossa capacidade de compreender como um sistema funciona e a criar novos sistemas. Algumas pessoas têm ambas as habilidades equilibradas, mas a maioria dos homens é significativamente melhor em compreender sistemas, enquanto a maioria das mulheres é melhor em compreender pessoas.

Outra teoria mais recente, e que acredito ser muito melhor e perfeitamente exemplificada no livro Is there anything good about men?, de Roy Baumeister, defende que homens e mulheres não possuem diferenças com relação às suas habilidades, mas com relação às suas motivações, o que afeta como suas habilidades são usadas. Dessa forma, não se trata de compreender melhor pessoas ou sistemas, mas de preferência por relacionamentos x preferência por funcionamento; empatia emocional x empatia de ação; que falarei com mais detalhes, no próximo artigo.

Referências

BARON-COHEN, S. The extreme male brain theory ofautism. TRENDS in cognitive sciences, [s. l.], v. 6, n. 6, p. 248-254, Junho 2002.
BAUMEISTER, R. F. Is there anything good about men?: How culture flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press, 2010. 
GILMORE, D. D. Manhood in the making: cultural concepts of masculinity. New Haven, NY: Yale University Press, 1990.
KISELICA, M. S. Promoting Positive Masculinity While Addressing Gender Role Conflict: A Balanced Theoretical Approach to Clinical Work with Boys and Men. In: BLAZINA, C.; SHEN-MILLER, D. S. (Ed.). An international psychology of men. New York: Routledge, 2010. Cap. 5, p. 127-156.

sábado, 16 de setembro de 2017

Trabalho e suicídio - quanto vale a vida do homem?

O trabalho é tão importante para os homens que o desemprego e a aposentadoria aumentam as chances de homens se suicidarem, mas não têm o mesmo efeito em mulheres.

Isso porque, em praticamente todo o mundo, ser um produtor é condição indispensável para que o homem seja digno de ser respeitado e amado. Ser um "homem de verdade" é, geralmente, associado com a capacidade de sustentar a si mesmo, à sua família e, se possível for, por que não o bairro ou uma instituição. No Japão, por exemplo, a vida de um homem é considerada inútil e desonrada se não estiver a serviço dos outros.

Para eles, uma vez que é impossível vivermos sozinhos, pelo menos nos primeiros anos de vida, todos temos uma dívida com a sociedade, dívida que só pode ser paga ao morrer protegendo, sustentando e cuidando dos outros. Não é a toa que as cartas e documentos deixados pelos pilotos kamikaze demonstram um tom de orgulho e alegria em serem escolhidos para se suicidarem em combate. Porque assim, sua dívida estaria paga.

Tal mentalidade é tão forte que, mesmo nesses tempos de "equidade", educamos as mulheres para trabalharem e serem independentes, poderem comprar suas roupas, maquiagens e afins sem terem de pedir dinheiro para o marido, mas ainda dizemos aos nossos filhos que eles devem procurar um "bom emprego" (o que geralmente significa um emprego que pague muito) para constituir uma família.

Assim, para o homem, o desemprego nunca é um simples contratempo econômico ou problemas financeiros, mas ao não ter emprego, o homem também costuma perder a sua própria identidade de homem, algo que, psicologicamente, pode explicar o aumento de casos de disfunção erétil (impotência sexual) em homens desempregados.

BAUMEISTER, R. F. Is there anything good about men?: How culture flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press, 2010. Cap. 9-10, p. 187-220.

FARRELL, W. Por que os homens são como são (tradução de Paulo Froes). Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991.

______. The myth of male power: why men are the disposable sex. [s.l.]: Dr. Warren Farrell, 1993/2014. Ebook Kindle.

GILMORE, D. D. Action and ambiguity: east and South asia. In: ______. Manhood in the making: cultural concepts of masculinity. New Haven, NY: Yale University Press, 1990. Cap. 8, p. 169-200.

QIN, P.; AGERBO, E.; MORTENSEN, P. B. Suicide risk in relation to socioeconomic, demographic, psychiatric, and familial factors: a national register-based study of all suicides in Denmark, 1981-1997. The American journal of Psychiatry, [s.l.], v. 160, n. 4, p.765-772, 2003. Disponível em < http://ajp.psychiatryonline.org/doi/full/10.1176/appi.ajp.160.4.765>. Acessado em 10 de setembro de 2017.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Sou mais forte não comendo - anorexia masculina

Estudos sobre imagem corporal e transtornos alimentares sempre focaram mais em mulheres do que homens, mas homens também podem sofrer com estes assuntos. Entre 5% e 10% das pessoas que sofrem de anorexia e/ou bulimia são homens, mas estudos recentes acreditam que o número pode ser bem maior. Isso porque é comum haverem diferenças entre a anorexia masculina e os critérios geralmente usados para diagnosticar a doença. Além disso, tratamentos usados com mulheres anoréxicas não são tão eficazes com homens anoréxicos (Drummond, 2002).

Homens parecem ter a propensão em ver o próprio corpo como uma espécie de máquina, isso faz com que sua satisfação corporal esteja mais relacionada com o que um homem consegue fazer do que com sua aparência. Talvez, por essa razão, homens anoréxicos sentem uma espécie de orgulho em serem capazes de resistir a longos períodos sem comer (ou alguns tipos específicos de comida), se vendo, portanto, como mais forte que os outros (força de vontade). Outras características são: uma espécie de medo por sentir que possui gordura no corpo e por alimentos gordurosos; diferente das mulheres, homens evitam fazer dietas e emagrecem abusando de atividades físicas; e, quando em grupo, podem competir para ver quem é o mais doente. (Drummond, 2002, 2010)

Sinais de que um homem sofre de anorexia incluem: perda de peso muito rápida, subnutrição (baixo Índice de Massa Corporal - IMC), doenças envolvendo o aparelho reprodutor e fragilidade estrutural inexplicada. Pessoas que sofrem de transtornos psiquiátricos ou usam drogas são mais propensas a desenvolverem anorexia. (Skolnick, Schulman, Galindo, Mechanick, 2016). Se você sofre ou suspeita que algum conhecido sofra, é importante buscar ajuda especializada.
Se você gostou, curta, compartilhe e inscreva-se para receber as atualizações.

Obra citada não disponível online
Drummond, M. (2010). Men's bodies throughout the life span. Em C. Blazina & D. S. Shen-Miller (eds.), An international psychology of men (pp. 159-188). New York: Routledge.

sábado, 24 de junho de 2017

Homens são esquecidos na gravidez e parto

A gestação costuma ser descrita pelos homens como um período tranquilo, em que sua única tarefa é oferecer apoio à mulher. Entretanto, como precisa que a mulher seja uma mediadora entre ele e o bebê, o homem pode ter dificuldade em perceber o bebê como real e de se sentir pai (Johansson et al., 2015).
Estudos em fisiologia indicam que os homens sofrem variações hormonais semelhantes às sofridas pelas mulheres quando estão próximos a uma criança, ou quando acreditam estar próximos a uma criança (Nunes-Costa et al., 2014). Além disso, é comum que, durante a gestação e parto, os homens sintam medo, ansiedade, pânico, impotência, felicidade, curiosidade, orgulho e sensação de estar enlouquecendo (ver por exemplo: Johansson et al., 2015; Oliveira; Silva, 2012).
Um estudo nos Estados Unidos encontrou que homens que não irão morar com seus futuros bebês apresentam mais sintomas depressivos no final da gestação. Após o nascimento, os sintomas depressivos costumam diminuir, enquanto o oposto acontece com os pais que irão morar com o bebê. Nesse caso, sintomas depressivos tendem a aumentar durante os primeiros cinco anos de vida do bebê. (Garfield et al., 2014).
Recentemente, pesquisadores de vários países pedem que se deixe o homem ficar junto da mulher durante todas as etapas do trabalho de parto e parto, pois isso melhora o relacionamento conjugal, a relação entre o homem e o bebê, diminui a necessidade de analgésicos, sedativos e diminui as chances da mulher ter alguma complicação durante o parto. (ver, por exemplo, Espírito Santo; Bonilha, 2000; Perdomini; Bonilha, 2011).
No Brasil, entrou em vigor a lei 11.108 no ano de 2005, conhecida como lei do acompanhante, que deveria garantir que, durante todas as etapas do trabalho de parto e parto, a mulher terá um acompanhante de sua escolha. Entretanto, há indícios de que isso ainda não ocorre (ver, por exemplo, Oliveira; Silva, 2012).
Não consegui encontrar dados oficiais, mas, segundo o estudo de Diniz et al. (2014), entre Fevereiro de 2011 e Outubro de 2012, quase 25% das mulheres ficaram sem acompanhante o tempo inteiro. Das que tiveram acompanhante, mais da metade tiveram só por um tempo e, em menos da metade dos casos, esse companheiro era o pai da criança.
Além disso, a maioria dos homens concorda que o pré-natal deva focar na mulher, mas reclamam que não sabem o que fazer com a informação recebido, isso quando não entram na sala de parto sem nenhuma informação. Dessa forma, continuam excluídos mesmo quando estão presentes (ver, por exemplo, Fenwick et al., 2011Oliveira; Silva, 2012).

Por fim, devemos garantir que a paternidade seja algo gratificante para os homens, não transformá-la numa obrigação que ele deve cumprir para provar algo a alguém, pois isso pode trazer mais sofrimento do que benefícios. (Osherson, 1992; Piccinini et al., 2004)

E você, passou ou conhece alguém que passou por algo assim? Conhece alguém que foi diferente? Conte-nos sua experiência.

Se gostou, lembre-se de curtir, compartilhar, inscrever-se e me seguir no Youtube e no Facebook.

Obra citada não disponível on-line
Osherson, S. Os homens e o amor. São Paulo: Círculo do livro, 1992

sábado, 27 de maio de 2017

Depressão pós-parto paterna

Poucas pessoas sabem o que é Depressão pós-parto (DPP), menos ainda que homens também podem ter DPP. Os primeiros estudos sobre a DPP paterna só surgiram há pouco mais de 10 anos, quase exclusivamente no norte da Europa. Indo direto ao ponto, a DPP consiste em um tipo de Depressão (tristeza doentia) que surge até um ano após o nascimento de uma criança.

Já na gestação e, principalmente, nos primeiros meses de vida do bebê, tanto o homem quanto a mulher sofrem mudanças hormonais, sociais e na autoimagem, desorganizando a rotina e o bem-estar de ambos os genitores. Por exemplo, se você já teve filho, provavelmente ficou noites sem dormir direito, passou a brigar mais com a mãe da criança que antes do nascimento, ia trabalhar exausto e irritado. Porém, dificilmente teve a oportunidade de conversar sobre isso. (Almeida, 2007; Oliveira & Silva, 2011, 2012; Postpartum Men, 2017).

Não se sabe ao certo quantos homens sofrem de DPP, estima-se que entre 10 e 25% dos pais possuem os sintomas. Ou seja, a quantidade de pais que desenvolve DPP pode variar de um para cada dez pais a até um caso de DPP para cada quatro pais. O que parece certo é que há uma relação entre a DPP paterna e a materna, ou seja, se a mulher apresenta DPP, o homem, provavelmente, também terá, e vice-versa. (Lovizutto & Schiavo, 2014)

Alguns pesquisadores sugerem que homens tendem a apresentar sintomas diferentes que as mulheres quando acometidos de Depressão (ex.: Hart, 2001). Sendo assim, é importante prestar atenção em sintomas clássicos e os da chamada "Depressão mascarada":
Sintomas clássicos
  • Sentimentos de tristeza, culpa ou vergonha constantes;
  • Crença de se ser inadequado, incompetente, imprestável; 
  • Perda de apetite;
  • Insônia; 
  • Falta de desejo sexual
  • Inquietação; 
  • Falta de energia ou cansaço o tempo inteiro;
  • Dificuldades em criar uma ligação ou cuidar do bebê;
  • Falta de concentração ou dificuldade de tomar decisões;
  • Isolamento; 
  • Pensamentos que irá machucar o bebê;
  • Pensamentos recorrentes de se matar
Depressão mascarada (mais comum em homens)
  • Irritabilidade ou comportamento agressivo;
  • Uso excessivo de álcool e drogas;
  • Impulsividade (dificuldade de se controlar);
  • Comportamentos de risco (ex.: dirigir sem cuidado, sexo com muitas pessoas etc).
  • Dores físicas sem causa orgânica (ex.: dores de cabeça ou de estômago);
  • Vício por trabalho ou fazer esportes;

Os efeitos ainda são desconhecidos, mas sugere-se que prejudica as relações conjugais, podendo culminar em divórcio, e as habilidades sociais das crianças, principalmente meninos, isso é, as crianças tendem a apresentar dificuldades de relacionamento com os outros, como problemas de agressividade, baixa autoestima e isolamento, podendo desenvolver transtornos mentais; além, é claro, de todos os problemas decorrentes de outras formas de Depressão.

Gostou? Deixe seu comentário e inscreva-se.

Obras citadas
Almeida, M. B. V. B. de (2007). Paternidade e subjetividade masculina em transformação: crise, crescimento e individuação, uma abordagem junguiana. Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo. Recuperado em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-13082007-150555/pt-br.php

Lovizutto, M. das G. F. F., Schiavo, R. da A. (2014). O que sabemos sobre a Depressão Pós-parto paterna? Psicologado, recuperado em: https://psicologado.com/psicopatologia/transtornos-psiquicos/o-que-sabemos-sobre-a-depressao-pos-parto-paterna

Oliveira, A. G. de; & Silva, R. R. (2011). Pai contemporâneo: diálogos entre pesquisadores brasileiros no período de 1998 a 2008. Revista Psicologia Argumento, 29(66), 53-360. Recuperado em: http://www2.pucpr.br/reol/pb/index.php/pa?dd1=5293&dd99=view&dd98=pb

Oliveira, A. G. de; & Silva, R. R. (2012). Parto também é assunto de homens: uma pesquisa clínico-qualitativa sobre a percepção dos pais acerca de suas reações psicológicas durante o parto. Interação em psicologia, 16(1), 113-123. Recuperado em http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&src=google&base=LILACS&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=668938&indexSearch=ID.

Postpartum Men. (2017). Postpartum men: helping men beat the baby blues and overcome depression. Recuperado em http://postpartummen.com/

sábado, 13 de maio de 2017

Estudos de Paternidade - de onde viemos e para onde vamos?

Se você já procurou alguma coisa sobre desenvolvimento infantil, você provavelmente sabe da importância da mãe para que uma criança seja saudável. Entretanto, não deve ter visto nada sobre o pai. A Psicologia do Desenvolvimento Infantil tem contribuído para afastar o homem do convívio familiar, dizendo que o homem é incapaz de cuidar dos próprios filhos/as, e atribuindo à mulher toda a responsabilidade pela saúde da criança. Uma Psicologia que reduz o relacionamento pai-mãe-criança a uma "tríade de dois" (S. SILVA, 2004, p. 37), e que é
"Alienante e culpabilizante para as mulheres, o mito do instinto materno se revela devastador para as crianças, em particular para os meninos. Esta teoria postula que a mãe é a única capaz de cuidar do recém-nascido e da criança porque fica determinada biologicamente para isso. O par mãe/criança formaria uma unidade ideal que ninguém pode nem deve perturbar. Legitima-se a exclusão do pai, com isto reforça-se a simbiose mãe/filho. (p. 43-44)."
Quando a Psicologia fala da importância do pai, fala-se que, após uma certa idade, ele deve romper a simbiose mãe-bebê, simbiose que os próprios psicólogos alimentaram e o advertiram para proteger, pois rompê-la seria danoso à criança. Eu mesmo, quando preciso procurar fontes científicas sobre paternidade, tenho dificuldade de encontrar artigos bons e preciso recorrer a revistas de enfermagem, que fazem análises psicológicas muito melhores que trabalhos feitos por psicólogos.

Voltemos aos fatos, o pai só começa a ser tratado como importante a partir de 1976, quando Michael E. Lamb publica o livro The role of the father in child development (O papel do pai no desenvolvimento infantil). Porém estudos mais consistentes, explorando a qualidade da relação pai-criança só começaram a surgir na década de 90 (GOETZ; VIEIRA, 2013) e, no Brasil, a comunidade científica só começa a estudar com afinco após o ano de 2004, aproximadamente (OLIVEIRA; R. SILVA, 2011; VIEIRA et al., 2014).
O que precisamos ter em mente ao falar da paternidade? Tornar-se pai acarreta em mudanças na autoimagem, nas relações sociais e nos hábitos de saúde (MORAES et al., 2016), conta com mudanças hormonais para auxiliar na paternagem (NUNES-COSTA et al., 2014), muda em função da personalidade paterna, personalidade da criança, sexo da criança, qualidade da relação conjugal, nível de escolaridade, trabalho, motivação, autoconfiança, suporte social e idade, tanto do pai quanto da criança (LAMB, 1997).

Costumamos reclamar que homens ainda não dividem os cuidados em igualdade com as mulheres. Mas como conseguiremos dividir o tempo em duas metades perfeitamente iguais se, nos casos de divórcio, damos a guarda, quase sempre, só pra mãe (IBGE, 2014) e a duração máxima da licença-paternidade é de 20 dias (nos casos de empresa cidadã) e a duração mínima da licença-maternidade é de 120 dias (ou seja, a licença-maternidade é de 6 a 36 vezes maior que a licença-paternidade)?
Outra questão: por que o pai precisa cuidar da criança nas mesmas áreas em que a mulher é boa? A divisão de tarefas é ruim quando extremamente rígida, impedindo as pessoas de realizarem seus potenciais e de serem felizes, mas a divisão em si não é nem boa, nem má. Tomemos, por exemplo, o estudo de Goetz e Vieira (2013), que perguntou a crianças de 10 e 11 anos sobre como deveria ser um pai e uma mãe ideais e como eram seus pais e mães.

No geral, mulheres se saíram melhores que homens, não havendo grandes diferenças entre a mãe ideal e a mãe real, mas ainda aquém do desejado. Entretanto, as crianças disseram que um pai e/ou uma mãe ideal deveria brincar, em média, pouco mais de quatro vezes por semana com eles e as mães não chegam a brincar nem duas vezes, enquanto os pais brincam de três a quatro vezes por semana.
Esses resultados colaboram com os diversos estudos que apontam que homens brincam mais e tendem a construir o vínculo pai-bebê baseado no lúdico. Muitas pessoas desvalorizam essa atitude, achando que, ao fazer isso, o pai está se reduzindo a um mero recreador, mas brincar é de fundamental importância para a saúde mental e desenvolvimento cognitivo da criança. Qualquer bom professor ou terapeuta brincará com a criança para que ela aprenda e fique bem, por que não deixar o pai fazer o mesmo?

Gostou? Deixe seu comentário, siga-me, veja meus vídeos no Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=VmpkOlcEjH4&t=2s), temos um grupo no Facebook (Psicoandrologia), também temos uma comunidade no Google + e no LinkedIn.

Obras citadas não disponíveis on-line
GOETZ, E. R; VIEIRA, M. L. Pai real, pai ideal: o papel paterno no desenvolvimento infantil. 3ª ed. reimpr. Curitiba: Juruá, 2013.

LAMB, M. E. The role of the father in child development. New York: John Wiley & Sons, 1997.

MORAES, Y. L. de; ARGENTA, K. S. M.; REZENDE, M. M. A experiência da paternidade de pais de bebês: um estudo descritivo-exploratório. 2016. 278p. Relatório de iniciação científica (Iniciação Científica com bolsa UMESP na graduação em Psicologia) - Escola de ciências médicas e da saúde, Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, SP. 2016.

SILVA, S. M. da. Exercícios da paternidade: estudo de dois casos clínicos. 2004. 162 p. Dissertação (pós-graduação em Psicologia da Saúde) – Faculdade de Saúde, Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, SP. 2004