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sábado, 16 de setembro de 2017

Trabalho e suicídio - quanto vale a vida do homem?

O trabalho é tão importante para os homens que o desemprego e a aposentadoria aumentam as chances de homens se suicidarem, mas não têm o mesmo efeito em mulheres.

Isso porque, em praticamente todo o mundo, ser um produtor é condição indispensável para que o homem seja digno de ser respeitado e amado. Ser um "homem de verdade" é, geralmente, associado com a capacidade de sustentar a si mesmo, à sua família e, se possível for, por que não o bairro ou uma instituição. No Japão, por exemplo, a vida de um homem é considerada inútil e desonrada se não estiver a serviço dos outros.

Para eles, uma vez que é impossível vivermos sozinhos, pelo menos nos primeiros anos de vida, todos temos uma dívida com a sociedade, dívida que só pode ser paga ao morrer protegendo, sustentando e cuidando dos outros. Não é a toa que as cartas e documentos deixados pelos pilotos kamikaze demonstram um tom de orgulho e alegria em serem escolhidos para se suicidarem em combate. Porque assim, sua dívida estaria paga.

Tal mentalidade é tão forte que, mesmo nesses tempos de "equidade", educamos as mulheres para trabalharem e serem independentes, poderem comprar suas roupas, maquiagens e afins sem terem de pedir dinheiro para o marido, mas ainda dizemos aos nossos filhos que eles devem procurar um "bom emprego" (o que geralmente significa um emprego que pague muito) para constituir uma família.

Assim, para o homem, o desemprego nunca é um simples contratempo econômico ou problemas financeiros, mas ao não ter emprego, o homem também costuma perder a sua própria identidade de homem, algo que, psicologicamente, pode explicar o aumento de casos de disfunção erétil (impotência sexual) em homens desempregados.

BAUMEISTER, R. F. Is there anything good about men?: How culture flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press, 2010. Cap. 9-10, p. 187-220.

FARRELL, W. Por que os homens são como são (tradução de Paulo Froes). Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991.

______. The myth of male power: why men are the disposable sex. [s.l.]: Dr. Warren Farrell, 1993/2014. Ebook Kindle.

GILMORE, D. D. Action and ambiguity: east and South asia. In: ______. Manhood in the making: cultural concepts of masculinity. New Haven, NY: Yale University Press, 1990. Cap. 8, p. 169-200.

QIN, P.; AGERBO, E.; MORTENSEN, P. B. Suicide risk in relation to socioeconomic, demographic, psychiatric, and familial factors: a national register-based study of all suicides in Denmark, 1981-1997. The American journal of Psychiatry, [s.l.], v. 160, n. 4, p.765-772, 2003. Disponível em < http://ajp.psychiatryonline.org/doi/full/10.1176/appi.ajp.160.4.765>. Acessado em 10 de setembro de 2017.

sábado, 2 de setembro de 2017

Suicídio - Quando a morte parece a melhor saída

Setembro é o mês da prevenção do suicídio, pratica que muitos homens chegam a pensar e/ou a realizar. Sendo assim, a primeira matéria desse mês será sobre o suicídio.
O suicídio consiste em uma pessoa tirar a própria vida conscientemente e é considerado um problema de saúde pública não só para aquele que o praticou como para amigos e familiares, que são abalados pelo evento. No mundo todo, o suicídio encontra-se entre as 10 principais causas de morte (Schlösser, Rosa, & More, 2014), sendo a oitava nos EUA (Farrell, 1993/2014) e, no Brasil, é a terceira maior causa por fatores externos (Machado & Santos, 2015)
No Brasil, o número de suicídios consumados (que resultaram em morte efetiva) é baixo para os padrões internacionais, apenas 6,3 mortes por 100 mil habitantes (OMS, 2017), sendo classificado como o 71º país com maior número de suicídios no mundo (Schlösser, Rosa, & More, 2014). Contudo, acredita-se que os valores possam ser muito maiores em decorrência de sub-notificação (Marín-León & Barros, 2003). Outro fenômeno observado mundialmente é que homens suicidam-se com 3 a 7,5 vezes mais frequência que mulheres, sendo Índia e China as duas únicas exceções. No Brasil, a proporção é de 3,7 homens para cada mulher. (Machado & Santos, 2015)

Tal diferença deve-se, em parte, a homens usarem métodos com maiores chances de sucesso (ou seja, de efetivamente morrerem, sem chance de serem salvos), sendo o enforcamento e o uso de armas de fogo, os métodos preferidos pelos homens (Marín-León & Barros, 2003; Minayo, Meneghel & Cavalcante, 2012). O suicídio geralmente ocorre em casa (51,9%) ou em hospitais (39,3%) (Marín-León & Barros, 2003).

Existem inúmeros fatores que podem levar um homem a cometer suicídio, mas as associações mais frequentes são desemprego; uso de álcool ou drogas; presença de um transtorno psiquiátrico, como Depressão; dívidas financeiras; problemas em relacionamentos familiares ou amorosos; sentimento permanente de humilhação; sentimento de impotência e dependência; e, principalmente, sentimento de ser um fardo para os outros. (Marín-León & Barros, 2003Minayo, Meneghel & Cavalcante, 2012).
Pessoas que pensam em se matar devem ser supervisionadas a todo instante e devem procurar ajuda profissional. Um primeiro passo pode ser entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida, que fica disponível 24h/dia por telefone (ligue 141), e-mail, chat e Skype.
Se você gostou, curta, comente, compartilhe e inscreva-se no blog.

Obra citada não disponível on-line
Farrell, W. (1993/2014). The Myth of Male Power: why men are the disposable sex (Ebook ed.). Autor.

sábado, 5 de agosto de 2017

Espelho, espelho meu, há alguém mais forte do que eu?

O ideal de corpo masculino tende a ser o de homem musculoso. Para crianças, um homem deve ter músculos para ser forte e rápido; para adolescentes, homens devem ser grandes, algo que ser musculoso ajuda muito; até gays e idosos idealizam o corpo masculino como sendo musculoso, com a diferença que homossexuais dão mais valor à questão estética enquanto idosos dão mais valor à independência e funcionamento do corpo. (Drummond, 2010)

Talvez por esse ideal, a maioria das pessoas que sofre de dismorfia muscular é homem. Também conhecida como "vigorexia", "complexo de Adônis" e "anorexia reversa", a dismorfia muscular consiste num transtorno mental
"[...] que ocorre quase exclusivamente no sexo masculino, consiste na preocupação com a ideia de que o próprio corpo é muito pequeno ou insuficientemente magro ou musculoso. Os indivíduos com essa forma de transtorno, na verdade, têm uma aparência corporal normal ou são ainda mais musculosos. Eles também podem ser preocupados com outras áreas do corpo, como a pele ou o cabelo. A maioria (mas não todos) faz dieta, exercícios e/ou levanta pesos excessivamente, às vezes causando danos ao corpo. Alguns usam esteroides anabolizantes perigosos e outras substâncias para tentar deixar seu corpo maior e mais musculoso." (DSM-V, p. 243)

Identificada em 1993, recebeu o nome de "anorexia reversa" por suas semelhanças com a anorexia, pois os comportamentos e crenças de dismórficos e anoréxicos tendem a ser os mesmos, mas de forma "invertida". O termo oficial mudou para "dismorfia muscular" em 1997, porque concluiu-se que a perturbação principal eram os exercícios físicos, sendo secundário as perturbações alimentares (Murray, Rieger, Touyz, & García, 2010). Assim, dismórficos acreditam serem muito pequenos e magros; evitam deixar partes do corpo à mostra por sentirem-se feios e inadequados; passam a se alimentar com mais frequência, geralmente em horários rígidos, e com mais proteína; praticam mais atividades físicas para fortalecer os músculos, como levantando peso, às vezes, de forma exagerada e sobrecarregando o corpo; além disso, ao contrário de anoréxicos e bulímicos que usam laxantes e inibidores de apetite, não é incomum dismórficos usarem esteroides anabolizantes e androgênicos (Behar & Aranciba, 2015)

De acordo com a revisão realizada por Tod, Edwards e Cranswick (2016), os sintomas costumam surgir no final da adolescência, começo da vida adulta (~20 anos), passam mais de três horas por dia pensando em serem mais musculosos, priorizam os exercícios e dietas a ponto de terem prejuízos no trabalho e nos relacionamentos, evitam ser vistos por preocupação com a própria imagem corporal.

Os comportamentos alimentares e de práticas de exercícios físicos tendem a obedecer padrões rígidos que se assemelham aos rituais do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Por outro lado, devido sua similaridade com a anorexia, inclusive na resposta aos tratamentos, há quem defenda que a dismorfia muscular deva ser considerada um transtorno alimentar e, como a pessoa se vê de forma diferente de como realmente é (geralmente, dismórficos são muito mais musculosos que a maioria das pessoas), pode ser considerado um Transtorno Dismórfico Corporal (quando considerados diferentes uns dos outros).

Outras polêmicas envolvendo a Dismorfia Muscular incluem o desconhecimento do quão comum ela é na população em geral e sua definição ser vaga, podendo incluir formas não patológicas de preocupação com a própria imagem e de ficar mais musculoso.

Para o DSM-V, os critérios diagnósticos para Dismorfia Muscular são:

  1. O indivíduo está preocupado com a ideia de que sua estrutura corporal é muito pequena ou insuficientemente musculosa. Isso vale mesmo que o indivíduo esteja preocupado com outras áreas do corpo, o que com frequência é o caso.
  2. Em algum momento durante o curso do transtorno, o indivíduo executou comportamentos repetitivos (p. ex., verificar-se no espelho, arrumar-se excessivamente, beliscar a pele, buscar tranquilização) ou atos mentais (p. ex., comparando sua aparência com a de outros) em resposta às preocupações com a aparência.
  3. A preocupação causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
  4. A preocupação com a aparência não é mais bem explicada por preocupações com a gordura ou o peso corporal em um indivíduo cujos sintomas satisfazem os critérios diagnósticos para um transtorno alimentar.

Caso você ou algum conhecido apresentem as características listadas acima, é importante que procure um profissional de saúde mental para confirmar a suspeita e receber o tratamento adequado. Lembre-se de curtir, comentar, compartilhar essa postagem para divulgar esse importante conhecimento e inscreva-se no blog para receber as atualizações.

Obras citadas não disponíveis online
Drummond, M. (2010). Men's bodies throughout the life span. Em C. Blazina & D. S. Shen-Miller (Eds.), An international psychology of men (pp. 159-188). New York: Routledge.

sábado, 6 de maio de 2017

Psicologia - ciência amiga ou inimiga dos homens

Quando digo para as pessoas que meu principal interesse é na Psicologia do homem, na Psicoandrologia, a primeira reação das pessoas é fazer uma careta e perguntar por quê, reação que não percebo quando colegas dizem "quero trabalhar com autistas", "com RH", "com câncer", "com escola" etc. Por que é tão estranho querer trabalhar com homens?
Conheci essa área da psicologia em 2013 e de lá para cá, me surpreendo cada vez mais, num sentido bem negativo, com a forma como psicólogos tratam esse segmento da população. O primeiro "contato" que tive, foi com a ausência. Na biblioteca da faculdade, havia cerca de 7 livros sobre psicologia feminina para cada livro sobre psicologia masculina.

Comecei a procurar, nas redes sociais, outros psicólogos que se interessassem pelo assunto e, até hoje, só encontrei um e, o que é pior, não foi num grupo de psicólogos. Perdi as contas de quantas palestras, cursos, workshops e atendimentos especializados vi para "mães de autistas", "mães de gêmeos", "mães de crianças com síndrome de Down", "mulheres que sofreram abortos", "mulheres vítimas de violência conjugal", "como ser mulher no século XXI", "como ser uma mulher de sucesso no trabalho e ainda ser feminina", "como as mulheres podem conciliar trabalho e família", "entre em contato com sua deusa interior", "encontros de mulheres" e por aí vai. Até hoje, nunca vi um anúncio de evento para homens. Quando pergunto por que deixar os homens de lado, a resposta geralmente é "que bom que você se interessou. No momento, trabalho apenas com mulheres, mas farei algo para os homens no futuro". Só que o futuro nunca chega e, quatro anos depois, a mesma pessoa continua me dando a mesma resposta para o mesmo curso.
O mais próximo que já vi de um evento disposto a abordar o atendimento a homens foi uma palestra sobre gênero na qual houve quatro apresentações: uma sobre homossexuais, uma sobre homens, uma sobre mulheres e uma sobre transsexuais. Essa foi, talvez, a minha maior decepção, pois o palestrante que se propôs a falar sobre homens não falou sobre homens, mas falou que seus pacientes eram quase todos mulheres que reclamavam de não conseguir um "homem de verdade" e que "não se fazem mais homens como antigamente". A partir daí, ele começou a "filosofar" sobre o comportamento masculino sem mencionar um único estudo sobre psicologia masculina, sem considerar a opinião de um único indivíduo sobre a sua própria experiência em ser homem e, quando eu o indaguei por que essa abordagem, a resposta foi "porque os homens não vão para o consultório". 
Homens são 49% da população brasileira e o próprio palestrante era homem! Ele poderia simplesmente ter conversado com amigos, vizinhos, colegas de trabalho, qualquer coisa pra dar um pouco de fidedignidade, mas não! Ele preferiu dizer que homens estão mais covardes, que eles têm medo de "mulheres independentes" e preferem se esconder atrás de aparelhos eletrônicos. Há homens com esse perfil? Aposto que sim. É por esse motivo que mulheres não conseguem encontrar "homens de verdade"? Claro que não.

Nos Estados Unidos, a Sociedade de Estudos Psicológicos do Homem e da Masculinidade (51ª Divisão da APA), que é o mais próximo de uma comunidade científica de estudos psicológicos sobre homens, tem como um de seus objetivos criar uma "Psicologia empática para com homens". Pegue qualquer livro produzido pela 51ª divisão, um artigo escrito por qualquer membro, acompanhe o grupo oficial do Facebook e você verá muitas coisas interessantes e úteis, mas, ao se distanciar um pouco e ver de forma mais objetiva e racional, perceberá que homens são infantilizados. Para a "Psicologia do Homem e da Masculinidade", a masculinidade é sempre tóxica e os homens são egoístas, violentos, insensíveis, sádicos e covardes. Nas palavras de Kiselica (2010), aquele que considero, por enquanto, o único membro sensato dessa comunidade,
"[A Psicologia do Homem e da Masculinidade] abraça esse tipo de modelo deficiente de desenvolvimento masculino que, além de não ter embasamento empírico, também contradiz um grande corpo de evidências em Psicologia do Desenvolvimento, podendo ter consequências perigosas. Ela alimenta a mentalidade de que garotos e homens são defeituosos, que precisam de conserto, e que eles são os culpados pelos problemas que os trazem a terapia". (p. 132-133, tradução minha)

Se você acha que estou exagerando, vá nos portais da Scielo, na PePSIC ou na BVS-Psi e escolha qualquer artigo que aborde a masculinidade. Que não apenas descreva, mas tente explicar o comportamento masculino e, com raras exceções, eles só mencionam os defeitos dos homens, geralmente de forma a induzir no leitor que os homens e os defeitos masculinos são uma coisa só. Poucos são os trabalhos que se salvam. Não estou especulando, estou trabalhando num artigo de revisão sistemática da literatura e, embora ainda não esteja concluído, já li mais da metade, mais de 30, dos artigos e digo que dificilmente essa impressão sairá.

Minha última terapeuta disse-me: "homens não vêem ao consultório porque vivemos numa sociedade machista. Se você quiser viver de atender homens, vai passar fome". Bom, por que homens iriam procurar um psicólogo se, antes de ser atendido, o psicólogo já sabe qual a causa do problema (machismo, masculinidade tóxica) e que o tratamento é uma espécie de doutrinação ideológica? Não temos a coragem de levantar a bunda da poltrona para perguntar a um amigo sobre um determinado assunto, mas sabemos e ensinamos a todos que homens têm medo de mulheres independentes?
Nesses últimos quatro anos, tenho prestado mais atenção nas pessoas quando saio de casa, em meus parentes e amigos e, principalmente, tenho procurado grupos de homens que discutem sobre a condição e as necessidades masculinas contemporâneas e afirmo, homens estão dispostos a "se abrir, falar de seus sentimentos", desde que estejamos dispostos a ouví-los. Por exemplo, em minha faculdade de graduação, esse ano, foi criado um projeto de pré-natal psicológico com mulheres gestantes. Os homens, vendo que aquilo estava fazendo bem a suas companheiras, pediram que também fosse feito um projeto com eles, pois eles não têm um espaço no qual possam conversar sobre a paternidade. Agora, a universidade não consegue criar um grupo de pré-natal para homens, porque o projeto foi pensado apenas nas mulheres e a logística não permite.

Recentemente, buscando conhecer melhor o que a Psicologia poderia oferecer aos homens, criei um formulário e solicitei que homens com mais de 15 anos o respondem-se (clique aqui para respondê-lo), o qual apresentarei os resultados até o presente momento.


  • No total, houve 48 respondentes;
  • A idade variou entre 15 e 62 anos (média: 27,5 anos, desvio padrão: 9,5 anos);
  • Responderam homens de 15 estados brasileiros, principalmente São Paulo (16 respondentes) e Paraná (6 respondentes);
  • 40 deles (83,3%) acham importante que haja grupos de discussão das necessidades masculinas;
  • Aqueles que disseram conhecer tais grupos (26 participantes) mencionaram grupos ativistas por direitos dos homens, totalmente virtuais (sim, compartilhei o formulário em grupos ativistas e sim, está enviesado. Mas também mandei para outros grupos, como ativistas por direitos das mulheres e o retorno foi baixíssimo. Então, essa é a população de referência). O único participante a mencionar um grupo presencial, apontou para um grupo feminista de reeducação de homens que agrediram suas companheiras;
Os temas mais importantes para se abordar obedeceram o seguinte rank:
  • 1º) com 39 votos (81,2%), o tema "Paternidade" é considerado o tema mais importante para os homens;
  • 2º) empate triplo entre "Educação", "O que significa 'ser homem'" e "Saúde". Cada um recebeu 36 votos (75,0%);
  • 3º) Suicídio - 35 votos (72,9%)
  • 4º) Relações amorosas e/ou sexuais - 34 votos (70,8%)
  • 5º) Trabalho - 33 votos (68,8%)
  • 6º) Violência - 32 votos (66,7%)
  • 7º) Dependência química - 23 votos (47,9%)
  • 8º) Empate entre "Esporte" e "Outros" - 12 votos (25%) cada
Vendo esses resultados, fica claro para mim por que homens não procuram serviços psicológicos. Quase todos os programas específicos para homens focam em violência (geralmente doméstica) e, quando há, em dependência química, temas que estão por último do rank de prioridades.

Por que quando trabalhamos com homens, precisamos focar na violência nos relacionamentos amorosos (sendo obrigatoriamente, o homem como agressor)? Por que não podemos falar do que significa ser homem num relacionamento amoroso? Afinal, as mulheres passaram a ter permissão para xavecar um homem e não ser chamada de vadia, mas ainda é esperado que o homem tome a iniciativa e, se a mulher tomar a iniciativa, ele é obrigado a ficar com ela. Por que não falamos sobre o impacto do trabalho no exercício da paternagem?

Terminarei com dois novos formulários: Se você é psicólogo(a) e tem alguma experiência no atendimento a homens que gostaria de relatar, para que eu aborde mais detalhadamente, clique aqui. Se você é homem e passa ou já passou por atendimento psicológico, compartilhe conosco sua experiência aqui.

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Obra citada
KISELICA, M. S. Promoting Positive Masculinity While Addressing Gender Role Conflict: A Balanced Theoretical Approach to Clinical Work with Boys and Men. In: BLAZINA, C.; SHEN-MILLER, D. S. An international psychology of men. New York: Routledge, 2010. Cap. 5, p. 127-156.

Para que uma Psicoandrologia?

Qual a necessidade de uma área da Psicologia focar apenas nas características dos homens? Bem, podemos começar com a citação de Kipnis, que usei na primeira postagem.
"É o bastante para nós saber que, por qualquer motivo, os sexos são diferentes de muitas formas. Sendo assim, podem precisar de abordagens diferentes para seus problemas psicológicos" (Kipnis, 2004, p. 187, tradução minha).
É de conhecimento geral que há doenças e problemas mais frequentes em um sexo que em outro. Por exemplo, que homens tendem a procurar os serviços de saúde quando a doença está num estágio mais avançado, dificultando o tratamento. Este é, talvez, o principal objetivo do Plano Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), descobrir como fazer os homens procurarem os serviços de saúde mais cedo e com mais frequência.

Os dados mais recentes mostram que, no Brasil, 94% das pessoas mortas por armas de fogo foram homens, um total de 39.895 homens mortos (Mapa da violência 2016), 93% dos homicídios de adolescentes com 16 e 17 anos eram homens, foram 3.845 rapazes assassinados (Mapa da violência 2015) e homens suicidam-se quase 4x mais que mulheres (Machado e Santos, 2015). Em Dezembro de 2007, 93% da população carcerária era do sexo masculino, mais de 396 mil presos (Departamento Penitenciário Nacional). Em 2002, houve 4.580 óbitos de homens relacionados à dependência de álcool (Marín-León, Oliveira e Botega, 2007), sendo que 19,5% (quase 1 em cada 5) dos homens são dependentes de álcool, enquanto apenas 6,9% das mulheres também o são; e 14,3% dos homens usam ou usaram maconha (cerca de 3x mais que as mulheres) (CEBRID, 2005).

A pessoa em situação de trabalho escravo na Amazônia é, quase sempre, homem (Théry, Mello, Hato e Girardi, 2009) e 82% dos moradores de rua, em todo o Brasil, também. São pouco mais de 26 mil homens vivendo nas ruas (Cortizo, 2015), além de 76,1% (5,5 milhões) das pessoas que sofreram acidente de trabalho entre 1998 e 2011 (BRASIL, 2013).
Homens cometem e sofrem violência conjugal quase na mesma proporção que mulheres (Zaleski et al., 2010), embora apenas a violência contra a mulher receba atenção. Em 2013, 86,3% dos casos de divórcios concedidos em 1ª instância terminaram com a guarda unilateral para mãe, ou seja, 179.674 crianças e adolescentes ficaram sob os cuidados apenas da mulher, cabendo ao pai apenas o direito de "visitar" seus filhos/as (IBGE, 2014). É sabido que a perda do convívio prejudica o vínculo paterno-filial, podendo terminar com a completa ruptura da relação de um homem com sua prole. Um homem nascido no ano 2000 tem uma expectativa de vida de quase 8 anos a menos que uma mulher nascida no mesmo ano e há quem diga que homens são maioria das crianças e adolescentes com distúrbios de aprendizagem, reprovação e evasão escolar, além de terem notas mais baixas, mas não encontrei fontes confiáveis sobre esses dados.

(Agradeço ao Tiago M. Peixoto, pois sem ele, não teria conseguido muitos desses números).

Para explicar essas diferenças, eu poderia recorrer às teorias que apresentei no primeiro post. Poderia dizer que isso é simples reflexo da neurofisiologia masculina, que é mais agressiva e propensa a correr riscos, ou que isso é culpa de nossa socialização patriarcal que faz os homens acreditarem que são invulneráveis e que não devem buscar ajuda. 

Quantas vezes não ouvi psicólogos dizerem que homens não procuram nossos serviços por preconceito, machismo, vergonha de pedir ajuda? Mas engraçado, homens não têm vergonha de "pedir ajuda" a um advogado, consultor financeiro ou a um banco.

Assim, ambas as respostas são simplistas demais. Se tais dados são apenas reflexo da diferença cerebral entre homens e mulheres, então não há nada que possamos fazer para mudar isso. Se é culpa do patriarcado, por que situações semelhantes, como a menor expectativa de vida, repetem-se mesmo em sociedades não patriarcais? Além de, "patriarcado" não é uma coisa física, nem uma instituição ou doutrina, mas um nome dado a um determinado padrão de comportamentos, seguido por um grande conjunto de pessoas, por razões desconhecidas pelas próprias pessoas. Como "destruir" um conceito? 

Ao invés de seguir o caminho da maioria dos psicólogos de "saber" o problema de um homem, mesmo que nunca tenha conversado com ele e transformar uma terapia ou um estudo científico numa aula de feminismo que, na prática, não oferece resultados, defendo que precisamos ter coragem de abandonar respostas fáceis e reducionistas e encararmos a verdade: usar uma teoria de mulheres que se sentem oprimidas por homens para educá-los não surte efeito, pois eles não se identificam como "opressores". 

Ao invés disso, precisamos recuperar nossa capacidade de escuta e empatia, para entender a lógica por trás do comportamento masculino. Afinal, se homens morrem mais porque foram educados para acreditar que são invulneráveis, por que não temos mais homens se jogando na frente de ônibus e trens para chegar ao trabalho e acreditando que sairão ilesos? Eu pretendia abordar essas questões aqui, mas terá de ficar para a próxima. Encerrarei dizendo que existe um motivo, além dos que mencionei anteriormente, que justificam a criação de uma ciência psicológica do homem e que, na minha opinião, é mais importante que todas as outras juntas:

Homens são cerca de 49% da população! Não há como você passar a sua vida inteira sem ter contato com um homem. Inclusive, não sei qual o seu sexo/gênero, caro leitor, mas há 50% de chances de você fazer parte dessa magnifica população.