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sábado, 24 de fevereiro de 2018

Melhorando de vida ao reconhecer os pensamentos automáticos

Eu sempre falo aqui no blog sobre a realidade masculina. Hoje, farei um pouco diferente, pois não adianta falar quais os males dos homens e não oferecer nenhuma solução e começarei pelos pensamentos automáticos.

O que são os pensamentos automáticos? Bem, o mundo está em constante mudança e muitas vezes não temos tempo de pensar no que fazer. Por essa razão, nossa mente é dotada da capacidade de pensar sozinha, muitas vezes tão rápido, que nem percebemos que pensamos. Esses são os pensamentos automáticos. Como todo pensamento, o pensamento automático é necessário para nossa sobrevivência e pode estar certo ou errado, mas por ser tão rápido, muitas vezes assume a forma de crença fanática e acaba nos autossabotando.

Por essa razão, é importante tentarmos perceber quando estamos diante de um pensamento automático e testarmos até que ponto ele é verdadeiro. O melhor é que qualquer um pode fazer isso: homem ou mulher, jovem ou idoso, psicólogo ou leigo. Veja quais desses pensamentos você tem com mais frequência e, depois, peça para seus conhecidos tentarem identificar os deles:

Filtro mental: É quando consideramos apenas os fatos que colaboram com nossa crença, mas ignoramos os fatos que contrariam nossa opinião. Um exemplo é a crença de que as mães são sempre melhores que os pais porque "sabem trocar fralda".

O que fazer quando pensamentos do tipo "filtro mental" estiverem atrapalhando sua vida?: Pergunte-se o que você pode estar ignorando. No exemplo acima, poderíamos perguntar "quantas vezes cada genitor já trocou as fraldas?" ou "só porque a mãe sabe trocar fraldas melhor que o pai, quer dizer que ela é melhor em tudo?"

Generalização: É quando usamos poucas situações para criar regras amplas e gerais. Um exemplo seriam as pessoas que, porque traem ou foram traídas uma vez, acreditam que as pessoas são incapazes de serem fiéis.

O que fazer quando pensamentos do tipo "generalização" estiverem atrapalhando sua vida?: Evite termos amplos e absolutos, como "tudo", "nada", "sempre", "nunca", "todos", "ninguém". Seja específico. No exemplo acima, pense "minha ex me traiu, mas que indícios tenho de que minha atual namorada também me trairá?" 

Personalização: É quando achamos que algo acontece por nossa causa, mesmo não tendo nenhuma relação. Esse tipo de pensamento é comum com filhos de genitores separados, que se sentem culpados pelo divórcio.

O que fazer quando pensamentos do tipo "personalização" estiverem atrapalhando sua vida?: equilibre as responsabilidades. Pergunte-se até que ponto você é realmente responsável (responsável, não culpado) pelo que ocorreu. No exemplo acima, converse com as crianças o verdadeiro motivo pelo qual está se divorciando e em como isso afetará a vida de cada um.

Tudo ou nada: É quando dividimos as coisas em bom e mau, perfeito e defeituoso. É o grande mau dos perfeccionistas e um exemplo seria pensar "se eu não for rico, não mereço viver (ou ser amado ou...)"

O que fazer quando pensamentos do tipo "tudo ou nada" estiverem atrapalhando sua vida?: Valorize os pontos do meio. A perfeição é inalcançável, qual o grau mínimo de satisfação? No exemplo acima, pense "enquanto eu não for rico, posso viver de forma satisfatória ganhando um mínimo de... (ou posso ser amado se eu apresentar as qualidades X ou o que conseguir pensar)".

Catastrofização: A maioria conhece esse pensamento automático como "pessimismo", é quando acreditamos que tudo dará errado e não existe a menor possibilidade de um "final feliz". Um exemplo comum são homens que cresceram sem pais e, por causa disso, acreditam que nunca serão bons pais, não importa o que aconteça.

O que fazer quando pensamentos do tipo "catastrofização" estiverem atrapalhando sua vida?: Considere todas as possibilidades. É certeza que pode dar errado, mas raramente esse é o único resultado possível. Tente pensar que outros resultados poderiam acontecer. No exemplo acima, poderíamos pensar "talvez você aprenda a ser um bom pai observando a mãe da criança, conversando com um pai que você considere exemplar. Talvez você tenha um bom instinto paterno e consiga aprender relativamente sozinho".

Leitura mental: É quando acreditamos que sabemos o que os outros estão pensando ou sentindo, que podemos prever como os outros irão agir. Esse é um problema comum com pessoas tímidas, que acreditam "saber" que os outros irão ridicularizá-lo se ele falar em público, se for visto dançando, etc.

O que fazer quando pensamentos do tipo "leitura mental" estiverem atrapalhando sua vida?: Infelizmente, não é possível ter certeza do que os outros pensam sem lhes perguntar. Tome coragem e pergunte aos outros o que eles fariam se vissem alguém fazer o que você pretende, diga o que pensa e aceite o risco de ser ridicularizado. Você se surpreenderá com o quão solidário as pessoas são. Se você se interessa por alguém, diga a essa pessoa o que sente, não se torture achando que será rejeitado só porque não tem coragem de se declarar.

Deixe nos comentários o que você achou dessas dicas, se elas foram úteis. Se tiver gostado, inscreva-se para receber as atualizações e espero poder vê-lo no workshop "Diferenças na comunicação masculina e feminina"

sábado, 25 de novembro de 2017

Planejamento familiar e vasectomia

Há mais de um mês e meio, eu pedi sugestões de temas para esse mês e, para a minha surpresa, não encontrei NENHUM texto científico sobre a experiência masculina no planejamento familiar. No máximo, qual a opinião de profissionais de saúde sobre o papel masculino no planejamento familiar. Assim, para escrever esse artigo, eu tive de me basear nos relatos daqueles que aceitaram dividir comigo suas experiências. (Os quais, eu agradeço muito).

Assim como ocorre com as mulheres, todo homem (ou quase todos) têm uma ideia de como deseja ser a sua família. O perfil da mulher com quem se casará, quantos filhos terá ou, até mesmo, não casar e não ter filhos. Entretanto, homens não têm o hábito de conversarem sobre esses assuntos, assim como é comum que não lhes perguntemos. Assim, o planejamento familiar para o homem, a nível individual, costuma ser semelhante a um segredo (apesar de ele não fazer questão de esconder), enquanto que a nível social, é de total exclusão/esquecimento.

Existem inúmeros métodos contraceptivos para as mulheres, mas para os homens, há apenas 4: vasectomia, camisinha, abstinência sexual e interrupção do coito. Sendo a vasectomia o mais confiável método de controle de fertilidade. Quando falamos em vasectomia, é importante lembrarmos que ela é definitiva e, a medida que o número de divórcios e recasamentos aumenta, aumenta também o número de homens que se arrependem de ter feito a vasectomia.

Homens que pretendem fazer vasectomia tendem a se preocupar em como será a vida sexual após a cirurgia, fantasiando possíveis problemas de ereção e ejaculação. Embora seja possível que o homem sinta dor por um tempo, aparentemente, a vasectomia não apresenta efeitos negativos no desempenho sexual do homem.

Fontes:

Homens que aceitaram compartilhar comigo suas experiências

Engl, T.; Hallmen, S.; Beecken, W.-D.; Rubenwolf, P.; Gerharz, E.-W.; Vallo, S. (2017). Impact of vasectomy on the sexual satisfaction of couples: experience from a specialized clinic. Central Europen Journal of Urology, 70(3), 275-279.

sábado, 11 de novembro de 2017

A pornografia na vida dos homens - quando se torna vício?

Outro tema sugerido foi o vício em pornografia. Confesso que esse tema foi um dos mais difíceis que encontrei, pois há quem defenda que esse é um problema real e sério, enquanto outros dizem que tais afirmações não passam de julgamentos morais provenientes de estudos enviesados.

Enquanto uns alegam que estímulos sexuais visuais ativam as mesmas áreas e mecanismos do cérebro (sistema de recompensa) que estímulos reais e apresentam as mesmas características que a dependência química de drogas, outros defendem que o sistema de recompensa age da mesma forma com qualquer coisa que gostemos e as principais características da dependência, necessidade de exposição cada vez maior e síndrome de abstinência, não aparecem em nenhum desses estudos, podendo os efeitos negativos observados terem uma causa comum com o alto consumo de material pornográfico, como a solidão.

Aqueles que defendem que não existe - ou, pelo menos, que não há indícios de que exista - ressaltam que assistir pornografia tem efeitos positivos, como atitudes mais positivas com a sexualidade, melhora da qualidade de vida, aumento do prazer em relacionamentos estáveis e diminuição de ataques sexuais.

Quem defende que o vício em pornografia é um problema real alega que quem tem dificuldade em se controlar no consumo de material pornográfico tem mais relações sexuais sem proteção, com mais parceiros desconhecidos, é mais propenso a ter disfunção erétil e a ter mais dificuldade em manter um relacionamento estável.

Uma vez que os estudos são inconsistentes, a regra a ser seguida é agir com moderação.

sábado, 4 de novembro de 2017

Quando o homem falha na cama - impotência sexual

O primeiro tema sugerido para esse mês é um problema temido por muitos homens, a disfunção erétil, mais conhecida como impotência sexual. A disfunção erétil consiste em ter dificuldades para ter ou manter uma ereção suficiente para um desempenho sexual satisfatório.

A disfunção erétil torna-se mais comum a medida que o homem envelhece, mas pode ocorrer em qualquer idade e sua causa pode ser cardiovascular, neurológica, hormonal e/ou psicológica. As causas mais comuns tendem a ser Diabetes, Hipertensão, Hiperlipidemia (excesso de gordura no sangue), obesidade, deficiência de testosterona, ansiedade de desempenho (preocupação relacionada ao ato sexual) e problemas de relacionamento com a parceira.

Muitos medicamentos causam ou agravam a disfunção erétil, principalmente remédios antidepressivos. Se você passou a ter disfunção erétil após começar a tomar algum medicamento, verifique com seu médico se pode ser o medicamento e se é possível trocar-lo. Fumar, bebidas alcoólicas e drogas ilícitas podem causar disfunção erétil.

Cerca de 10% dos homens que sofrem com disfunção erétil tem diabetes não-diagnosticada e episódios de disfunção erétil tendem a ocorrer de 2 a 5 anos antes de uma doença arterial coronariana se manifestar. Assim, se você tem sofrido com disfunção erétil, é importante consultar um cardiologista e um endocrinologista.

Às vezes, a disfunção erétil pode ser curada pela simples mudança de hábitos, como parar de fumar, fazer exercícios regularmente e, para os obesos, perder peso. Além de hábitos para controle de diabetes, hipertensão e hiperlipidemia. Em homens com menos de 40 anos, é mais provável que a causa da disfunção seja psicológica, embora disfunções eréteis de origem psicológica possam ocorrer em qualquer idade.

Causas psicológicas tendem a incluir a ansiedade de desempenho, tabus religiosos, histórico de abuso sexual, mitos sexuais (ex.: "homem nunca deve recusar sexo"), Transtornos Depressivos, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Transtornos Ansiosos e ter pensamentos negativos durante a atividade sexual. Todas essas causas podem ser tratadas com psicoterapia de abordagem cognitiva-comportamental, sendo que a terapia em grupo e o envolvimento da parceira no processo terapêutico tem mais efetividade que a terapia individual.

Uma forma de identificar se a disfunção é de origem psicológica ou orgânica é tentando ter uma ereção durante a masturbação. Quando a causa é orgânica, o pênis não fica ereto nem mesmo durante a masturbação, mas tende a ficar quando a causa é psicológica. Contudo, nem sempre esse método acerta e uma avaliação precisa só pode ser realizada por um profissional.

Quando psicoterapia e mudança de hábitos não dão certo, costuma ser necessário recorrer a medicamentos, sendo os mais eficazes os inibidores de fosfodiesterase-5, família do famoso Viagra (não se automedique, consulte um médico para saber se você pode tomá-lo). Estudos sugerem que, independente da causa, a psicoterapia combinada com o uso de medicamentos é mais eficaz que qualquer um dos dois separados.

Quando até mesmo tais medicamentos falham, é necessário recorrer a tratamentos mais invasivos, como injeções intrapenianas, bombas de vácuo e, se isso também falhar, próteses penianas.

Fontes:
Karl & Joel (2016). Erectile Dysfunction.
Brotto e colaboradores (2016). Psychological and interpersonal dimensions of sexual function and dysfunction.

sábado, 30 de setembro de 2017

Final Fantasy XIV: pai depressivo - uma história de amor masculino

Recentemente, chegou ao Netflix brasileiro, a série Final Fantasy XIV: dad of light (Fantasia Final 14: pai de luz), que conta a história de um garoto japonês (Akio) com dificuldade de se relacionar com seu pai. Um dia, seu pai misteriosamente diz ter pedido demissão e não procurará um novo emprego. Ele simplesmente decidiu se aposentar mais cedo. Numa tentativa de descobrir o motivo da demissão misteriosa e recuperar o vínculo pai-filho, o jovem Akio ensina seu pai a jogar o MMORPG (Massive Multiplayer Online Role Play Game) Final Fantasy XIV e, secretamente, se torna amigo dele dentro do jogo, agindo como um tutor e comprometendo-se a só revelar a sua verdadeira identidade após derrotar Twintania.

Pode parecer bobagem dizer que você e seu pai quase não conseguem conversar e tentar se aproximar dele através de um jogo online, mas essa é uma história real. Como é de se esperar, parece que há algumas diferenças entre o exibido na série e a história real e, apesar de minha ignorância em japonês e o tradutor online não ajudarem muito em saber a diferença entre realidade e ficção, o projeto hikari no otösan (pai de luz) foi uma tentativa real de aproximação entre pai e filho que durou 10 meses jogando Final Fantasy XIV e divulgada no blog pessoal do filho (até agora, só consegui identificá-lo como "Ichigeki Kakusatsu SS Nikki" ou Mydie) se transformou em livro e na série original do Netflix.
Realidade ou ficção, pretendo ter como foco o personagem Hirotaro Inaba (o pai) e fazer uma análise dele e de como podemos aprender mais sobre a masculinidade. A partir de agora, haverá spoilers. Se você ainda não assistiu e não gosta que te digam o que acontece nas suas séries, filmes e livros, pare agora, vá assistir e depois volte.

O sr. Inaba tem o perfil geralmente chamado de "pai tradicional", muito ocupado com o trabalho, quase não passa tempo com a família, emocionalmente frio e distante. Aqueles que acreditam que seus pais não foram "pais carinhosos" certamente devem achar o próprio pai e o Sr. Inaba muito parecidos. O foco no trabalho e distância emocional, com o tempo, tornaram o sr. Inaba e o próprio filho em dois estranhos, de forma que eles não conseguem nem ter uma conversa superficial.

Akio sente a necessidade de entender melhor seu pai, mas não consegue uma conversa franca. Então, após ser aconselhado pelos seus amigos de FF14, compra um PlayStation 4, o jogo FF14 e ensina o básico a seu pai. Após isso, corre para o próprio quarto e tenta tornar-se amigo do próprio pai, sem que ele descubra sua real identidade.
Akio e Hirotaro (Maidy e Indy) conseguem se conectar e, por ser menos vergonhoso (e mais fácil) falar de suas fraquezas para um estranho que para aqueles que amamos, Akio descobre que seu pai pediu demissão por estar doente, uma doença que pode matá-lo se não operar e mesmo a operação não é garantia de sobreviver. Com essa notícia, o Sr. Inaba não conseguia mais ter um objetivo de vida, nada para ele fazia mais sentido. Ao que me parece, ele estava com Depressão.

Mas através do jogo, ele encontrou pessoas que pareciam se importar com ele, que o ajudavam e que precisavam de ajuda. Juntos, eles enfrentavam desafios, ficavam mais fortes, compartilhavam a alegria da vitória, consolavam-se na derrota e discutiam estratégias. Isso é importante se considerarmos as qualidades masculinas, das quais destaco: orientação para grupos, empatia de ação e formação de vínculos através de atividades e objetivos comuns.

O desenrolar da história me leva a crer que Akio conseguiu curar a Depressão de seu pai, o que não significa que jogos online curam depressão, mas através do jogo, ele conseguiu estabelecer um relacionamento verdadeiro com seu pai, dando-lhe um novo sentido para a vida e restaurando sua vontade de viver.

Mas eu gostaria de chamar a atenção para os sintomas do sr. Inaba que, a primeira vista, não existem. Quando se fala em Depressão, costumamos pensar nos casos extremos, aquelas pessoas que não conseguem sair da cama, que choram por qualquer coisa, casos reais, mas raros. Muitos sofrem de uma Depressão mais silenciosa, uma distimia talvez, como a do sr. Inaba. Parece que a pessoa apenas não quer falar, é apenas seu jeito de ser, é apenas uma fase, e, às vezes, é realmente apenas isso, às vezes, é algo mais. Se Akio não tivesse feito seu pai jogar FF14 e se tornado seu amigo virtual, talvez, o sr. Inaba nunca teria feito a cirurgia e teria morrido, deixando um filho magoado por nunca ter entendido seu pai.

sábado, 16 de setembro de 2017

Trabalho e suicídio - quanto vale a vida do homem?

O trabalho é tão importante para os homens que o desemprego e a aposentadoria aumentam as chances de homens se suicidarem, mas não têm o mesmo efeito em mulheres.

Isso porque, em praticamente todo o mundo, ser um produtor é condição indispensável para que o homem seja digno de ser respeitado e amado. Ser um "homem de verdade" é, geralmente, associado com a capacidade de sustentar a si mesmo, à sua família e, se possível for, por que não o bairro ou uma instituição. No Japão, por exemplo, a vida de um homem é considerada inútil e desonrada se não estiver a serviço dos outros.

Para eles, uma vez que é impossível vivermos sozinhos, pelo menos nos primeiros anos de vida, todos temos uma dívida com a sociedade, dívida que só pode ser paga ao morrer protegendo, sustentando e cuidando dos outros. Não é a toa que as cartas e documentos deixados pelos pilotos kamikaze demonstram um tom de orgulho e alegria em serem escolhidos para se suicidarem em combate. Porque assim, sua dívida estaria paga.

Tal mentalidade é tão forte que, mesmo nesses tempos de "equidade", educamos as mulheres para trabalharem e serem independentes, poderem comprar suas roupas, maquiagens e afins sem terem de pedir dinheiro para o marido, mas ainda dizemos aos nossos filhos que eles devem procurar um "bom emprego" (o que geralmente significa um emprego que pague muito) para constituir uma família.

Assim, para o homem, o desemprego nunca é um simples contratempo econômico ou problemas financeiros, mas ao não ter emprego, o homem também costuma perder a sua própria identidade de homem, algo que, psicologicamente, pode explicar o aumento de casos de disfunção erétil (impotência sexual) em homens desempregados.

BAUMEISTER, R. F. Is there anything good about men?: How culture flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press, 2010. Cap. 9-10, p. 187-220.

FARRELL, W. Por que os homens são como são (tradução de Paulo Froes). Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991.

______. The myth of male power: why men are the disposable sex. [s.l.]: Dr. Warren Farrell, 1993/2014. Ebook Kindle.

GILMORE, D. D. Action and ambiguity: east and South asia. In: ______. Manhood in the making: cultural concepts of masculinity. New Haven, NY: Yale University Press, 1990. Cap. 8, p. 169-200.

QIN, P.; AGERBO, E.; MORTENSEN, P. B. Suicide risk in relation to socioeconomic, demographic, psychiatric, and familial factors: a national register-based study of all suicides in Denmark, 1981-1997. The American journal of Psychiatry, [s.l.], v. 160, n. 4, p.765-772, 2003. Disponível em < http://ajp.psychiatryonline.org/doi/full/10.1176/appi.ajp.160.4.765>. Acessado em 10 de setembro de 2017.

sábado, 2 de setembro de 2017

Suicídio - Quando a morte parece a melhor saída

Setembro é o mês da prevenção do suicídio, pratica que muitos homens chegam a pensar e/ou a realizar. Sendo assim, a primeira matéria desse mês será sobre o suicídio.
O suicídio consiste em uma pessoa tirar a própria vida conscientemente e é considerado um problema de saúde pública não só para aquele que o praticou como para amigos e familiares, que são abalados pelo evento. No mundo todo, o suicídio encontra-se entre as 10 principais causas de morte (Schlösser, Rosa, & More, 2014), sendo a oitava nos EUA (Farrell, 1993/2014) e, no Brasil, é a terceira maior causa por fatores externos (Machado & Santos, 2015)
No Brasil, o número de suicídios consumados (que resultaram em morte efetiva) é baixo para os padrões internacionais, apenas 6,3 mortes por 100 mil habitantes (OMS, 2017), sendo classificado como o 71º país com maior número de suicídios no mundo (Schlösser, Rosa, & More, 2014). Contudo, acredita-se que os valores possam ser muito maiores em decorrência de sub-notificação (Marín-León & Barros, 2003). Outro fenômeno observado mundialmente é que homens suicidam-se com 3 a 7,5 vezes mais frequência que mulheres, sendo Índia e China as duas únicas exceções. No Brasil, a proporção é de 3,7 homens para cada mulher. (Machado & Santos, 2015)

Tal diferença deve-se, em parte, a homens usarem métodos com maiores chances de sucesso (ou seja, de efetivamente morrerem, sem chance de serem salvos), sendo o enforcamento e o uso de armas de fogo, os métodos preferidos pelos homens (Marín-León & Barros, 2003; Minayo, Meneghel & Cavalcante, 2012). O suicídio geralmente ocorre em casa (51,9%) ou em hospitais (39,3%) (Marín-León & Barros, 2003).

Existem inúmeros fatores que podem levar um homem a cometer suicídio, mas as associações mais frequentes são desemprego; uso de álcool ou drogas; presença de um transtorno psiquiátrico, como Depressão; dívidas financeiras; problemas em relacionamentos familiares ou amorosos; sentimento permanente de humilhação; sentimento de impotência e dependência; e, principalmente, sentimento de ser um fardo para os outros. (Marín-León & Barros, 2003Minayo, Meneghel & Cavalcante, 2012).
Pessoas que pensam em se matar devem ser supervisionadas a todo instante e devem procurar ajuda profissional. Um primeiro passo pode ser entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida, que fica disponível 24h/dia por telefone (ligue 141), e-mail, chat e Skype.
Se você gostou, curta, comente, compartilhe e inscreva-se no blog.

Obra citada não disponível on-line
Farrell, W. (1993/2014). The Myth of Male Power: why men are the disposable sex (Ebook ed.). Autor.

sábado, 5 de agosto de 2017

Espelho, espelho meu, há alguém mais forte do que eu?

O ideal de corpo masculino tende a ser o de homem musculoso. Para crianças, um homem deve ter músculos para ser forte e rápido; para adolescentes, homens devem ser grandes, algo que ser musculoso ajuda muito; até gays e idosos idealizam o corpo masculino como sendo musculoso, com a diferença que homossexuais dão mais valor à questão estética enquanto idosos dão mais valor à independência e funcionamento do corpo. (Drummond, 2010)

Talvez por esse ideal, a maioria das pessoas que sofre de dismorfia muscular é homem. Também conhecida como "vigorexia", "complexo de Adônis" e "anorexia reversa", a dismorfia muscular consiste num transtorno mental
"[...] que ocorre quase exclusivamente no sexo masculino, consiste na preocupação com a ideia de que o próprio corpo é muito pequeno ou insuficientemente magro ou musculoso. Os indivíduos com essa forma de transtorno, na verdade, têm uma aparência corporal normal ou são ainda mais musculosos. Eles também podem ser preocupados com outras áreas do corpo, como a pele ou o cabelo. A maioria (mas não todos) faz dieta, exercícios e/ou levanta pesos excessivamente, às vezes causando danos ao corpo. Alguns usam esteroides anabolizantes perigosos e outras substâncias para tentar deixar seu corpo maior e mais musculoso." (DSM-V, p. 243)

Identificada em 1993, recebeu o nome de "anorexia reversa" por suas semelhanças com a anorexia, pois os comportamentos e crenças de dismórficos e anoréxicos tendem a ser os mesmos, mas de forma "invertida". O termo oficial mudou para "dismorfia muscular" em 1997, porque concluiu-se que a perturbação principal eram os exercícios físicos, sendo secundário as perturbações alimentares (Murray, Rieger, Touyz, & García, 2010). Assim, dismórficos acreditam serem muito pequenos e magros; evitam deixar partes do corpo à mostra por sentirem-se feios e inadequados; passam a se alimentar com mais frequência, geralmente em horários rígidos, e com mais proteína; praticam mais atividades físicas para fortalecer os músculos, como levantando peso, às vezes, de forma exagerada e sobrecarregando o corpo; além disso, ao contrário de anoréxicos e bulímicos que usam laxantes e inibidores de apetite, não é incomum dismórficos usarem esteroides anabolizantes e androgênicos (Behar & Aranciba, 2015)

De acordo com a revisão realizada por Tod, Edwards e Cranswick (2016), os sintomas costumam surgir no final da adolescência, começo da vida adulta (~20 anos), passam mais de três horas por dia pensando em serem mais musculosos, priorizam os exercícios e dietas a ponto de terem prejuízos no trabalho e nos relacionamentos, evitam ser vistos por preocupação com a própria imagem corporal.

Os comportamentos alimentares e de práticas de exercícios físicos tendem a obedecer padrões rígidos que se assemelham aos rituais do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Por outro lado, devido sua similaridade com a anorexia, inclusive na resposta aos tratamentos, há quem defenda que a dismorfia muscular deva ser considerada um transtorno alimentar e, como a pessoa se vê de forma diferente de como realmente é (geralmente, dismórficos são muito mais musculosos que a maioria das pessoas), pode ser considerado um Transtorno Dismórfico Corporal (quando considerados diferentes uns dos outros).

Outras polêmicas envolvendo a Dismorfia Muscular incluem o desconhecimento do quão comum ela é na população em geral e sua definição ser vaga, podendo incluir formas não patológicas de preocupação com a própria imagem e de ficar mais musculoso.

Para o DSM-V, os critérios diagnósticos para Dismorfia Muscular são:

  1. O indivíduo está preocupado com a ideia de que sua estrutura corporal é muito pequena ou insuficientemente musculosa. Isso vale mesmo que o indivíduo esteja preocupado com outras áreas do corpo, o que com frequência é o caso.
  2. Em algum momento durante o curso do transtorno, o indivíduo executou comportamentos repetitivos (p. ex., verificar-se no espelho, arrumar-se excessivamente, beliscar a pele, buscar tranquilização) ou atos mentais (p. ex., comparando sua aparência com a de outros) em resposta às preocupações com a aparência.
  3. A preocupação causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
  4. A preocupação com a aparência não é mais bem explicada por preocupações com a gordura ou o peso corporal em um indivíduo cujos sintomas satisfazem os critérios diagnósticos para um transtorno alimentar.

Caso você ou algum conhecido apresentem as características listadas acima, é importante que procure um profissional de saúde mental para confirmar a suspeita e receber o tratamento adequado. Lembre-se de curtir, comentar, compartilhar essa postagem para divulgar esse importante conhecimento e inscreva-se no blog para receber as atualizações.

Obras citadas não disponíveis online
Drummond, M. (2010). Men's bodies throughout the life span. Em C. Blazina & D. S. Shen-Miller (Eds.), An international psychology of men (pp. 159-188). New York: Routledge.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Sou mais forte não comendo - anorexia masculina

Estudos sobre imagem corporal e transtornos alimentares sempre focaram mais em mulheres do que homens, mas homens também podem sofrer com estes assuntos. Entre 5% e 10% das pessoas que sofrem de anorexia e/ou bulimia são homens, mas estudos recentes acreditam que o número pode ser bem maior. Isso porque é comum haverem diferenças entre a anorexia masculina e os critérios geralmente usados para diagnosticar a doença. Além disso, tratamentos usados com mulheres anoréxicas não são tão eficazes com homens anoréxicos (Drummond, 2002).

Homens parecem ter a propensão em ver o próprio corpo como uma espécie de máquina, isso faz com que sua satisfação corporal esteja mais relacionada com o que um homem consegue fazer do que com sua aparência. Talvez, por essa razão, homens anoréxicos sentem uma espécie de orgulho em serem capazes de resistir a longos períodos sem comer (ou alguns tipos específicos de comida), se vendo, portanto, como mais forte que os outros (força de vontade). Outras características são: uma espécie de medo por sentir que possui gordura no corpo e por alimentos gordurosos; diferente das mulheres, homens evitam fazer dietas e emagrecem abusando de atividades físicas; e, quando em grupo, podem competir para ver quem é o mais doente. (Drummond, 2002, 2010)

Sinais de que um homem sofre de anorexia incluem: perda de peso muito rápida, subnutrição (baixo Índice de Massa Corporal - IMC), doenças envolvendo o aparelho reprodutor e fragilidade estrutural inexplicada. Pessoas que sofrem de transtornos psiquiátricos ou usam drogas são mais propensas a desenvolverem anorexia. (Skolnick, Schulman, Galindo, Mechanick, 2016). Se você sofre ou suspeita que algum conhecido sofra, é importante buscar ajuda especializada.
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Obra citada não disponível online
Drummond, M. (2010). Men's bodies throughout the life span. Em C. Blazina & D. S. Shen-Miller (eds.), An international psychology of men (pp. 159-188). New York: Routledge.

sábado, 10 de junho de 2017

Síndrome de couvade - gravidez masculina

A Síndrome de couvade ("chocar" em francês) é quando um homem apresenta sintomas físicos ou emocionais enquanto sua companheira está grávida. Isso foi muito estudado durante os anos 80, no exterior, e, desde então, foi praticamente esquecida pelos cientistas.
O único trabalho brasileiro que já encontrei, até hoje, é o de Martini e colaboradores (2010) e, como eles demonstram, cada pesquisador usa critérios diferentes para dizer se um homem apresenta um quadro de Síndrome de couvade ou não, o que torna difícil falar alguma coisa sobre a Síndrome. O que parece estar de comum acordo é que os sintomas devem desaparecer com o nascimento do bebê, ou pouco antes, e não afetam a saúde do homem a ponto de precisar de tratamento.
Acredita-se que entre 11% e 97% dos homens, durante a gestação de suas companheiras, têm sintomas relacionados à gravidez. Os sintomas citados com mais frequência são vômito, perda de apetite, dores nas costas, nos dentes ou de cabeça. Alguns pesquisadores também incluem vontade de comer determinados alimentos (desejo de grávida), azia, dor de barriga, dificuldade de respirar, depressão (tristeza permanente), dificuldade para dormir, irritação fácil e gagueira.

Existem 3 (três) teorias de por que alguns homens têm esses sintomas durante a gravidez da companheira:

  • Teoria psicossocial: Tornar-se pai é um processo difícil que envolve muitas mudanças, inclusive na forma como o homem vê a si mesmo. Há sociedades que, para ajudar o homem a passar por essa mudança, realizam rituais de passagem. Por meio desses rituais, o homem estará preparado para ser pai e será visto oficialmente por toda a sociedade como capaz. A sociedade ocidental não prepara o homem para ser pai e geralmente vê a paternidade como tendo pouca importância. Sem a ajuda da sociedade, a mente faz o homem se sentir preparado criando a ilusão de que é ele quem está grávido;
  • Estudos sobre a parentalidade: Para essa teoria, a existência dos sintomas está relacionada com o desejo do homem de ser pai. Quando um homem está realmente envolvido na criação da criança e deseja ter um papel ativo na criação dela, o vínculo que o pai estabelece com o feto e seu "bebê imaginário" são tão fortes que provocariam uma gravidez psicológica;
  • Psicanalítica: Até, mais ou menos os 5 (cinco) anos de idade, as crianças acreditam que podemos mudar de sexo naturalmente. Assim, meninos acreditam que poderão engravidar e amamentar um dia. Quando percebemos que o sexo é algo fixo, o desejo de engravidar seria "abandonado", mas, quando a mulher engravida, o desejo volta na forma de inveja da mulher, geralmente, sem que o homem perceba que tem inveja. Para "competir" com a mulher e realizar seu desejo de engravidar, a mente do homem copia os sintomas da mulher e faz com que o homem também sinta.
Para você, qual das três faz mais sentido? Você tem alguma outra teoria? Então conte-nos nos comentários. Lembre-se de me seguir aqui, no Youtube, no Facebook, Twitter,  Google + e no LinkedIn

sábado, 27 de maio de 2017

Depressão pós-parto paterna

Poucas pessoas sabem o que é Depressão pós-parto (DPP), menos ainda que homens também podem ter DPP. Os primeiros estudos sobre a DPP paterna só surgiram há pouco mais de 10 anos, quase exclusivamente no norte da Europa. Indo direto ao ponto, a DPP consiste em um tipo de Depressão (tristeza doentia) que surge até um ano após o nascimento de uma criança.

Já na gestação e, principalmente, nos primeiros meses de vida do bebê, tanto o homem quanto a mulher sofrem mudanças hormonais, sociais e na autoimagem, desorganizando a rotina e o bem-estar de ambos os genitores. Por exemplo, se você já teve filho, provavelmente ficou noites sem dormir direito, passou a brigar mais com a mãe da criança que antes do nascimento, ia trabalhar exausto e irritado. Porém, dificilmente teve a oportunidade de conversar sobre isso. (Almeida, 2007; Oliveira & Silva, 2011, 2012; Postpartum Men, 2017).

Não se sabe ao certo quantos homens sofrem de DPP, estima-se que entre 10 e 25% dos pais possuem os sintomas. Ou seja, a quantidade de pais que desenvolve DPP pode variar de um para cada dez pais a até um caso de DPP para cada quatro pais. O que parece certo é que há uma relação entre a DPP paterna e a materna, ou seja, se a mulher apresenta DPP, o homem, provavelmente, também terá, e vice-versa. (Lovizutto & Schiavo, 2014)

Alguns pesquisadores sugerem que homens tendem a apresentar sintomas diferentes que as mulheres quando acometidos de Depressão (ex.: Hart, 2001). Sendo assim, é importante prestar atenção em sintomas clássicos e os da chamada "Depressão mascarada":
Sintomas clássicos
  • Sentimentos de tristeza, culpa ou vergonha constantes;
  • Crença de se ser inadequado, incompetente, imprestável; 
  • Perda de apetite;
  • Insônia; 
  • Falta de desejo sexual
  • Inquietação; 
  • Falta de energia ou cansaço o tempo inteiro;
  • Dificuldades em criar uma ligação ou cuidar do bebê;
  • Falta de concentração ou dificuldade de tomar decisões;
  • Isolamento; 
  • Pensamentos que irá machucar o bebê;
  • Pensamentos recorrentes de se matar
Depressão mascarada (mais comum em homens)
  • Irritabilidade ou comportamento agressivo;
  • Uso excessivo de álcool e drogas;
  • Impulsividade (dificuldade de se controlar);
  • Comportamentos de risco (ex.: dirigir sem cuidado, sexo com muitas pessoas etc).
  • Dores físicas sem causa orgânica (ex.: dores de cabeça ou de estômago);
  • Vício por trabalho ou fazer esportes;

Os efeitos ainda são desconhecidos, mas sugere-se que prejudica as relações conjugais, podendo culminar em divórcio, e as habilidades sociais das crianças, principalmente meninos, isso é, as crianças tendem a apresentar dificuldades de relacionamento com os outros, como problemas de agressividade, baixa autoestima e isolamento, podendo desenvolver transtornos mentais; além, é claro, de todos os problemas decorrentes de outras formas de Depressão.

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Obras citadas
Almeida, M. B. V. B. de (2007). Paternidade e subjetividade masculina em transformação: crise, crescimento e individuação, uma abordagem junguiana. Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo. Recuperado em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-13082007-150555/pt-br.php

Lovizutto, M. das G. F. F., Schiavo, R. da A. (2014). O que sabemos sobre a Depressão Pós-parto paterna? Psicologado, recuperado em: https://psicologado.com/psicopatologia/transtornos-psiquicos/o-que-sabemos-sobre-a-depressao-pos-parto-paterna

Oliveira, A. G. de; & Silva, R. R. (2011). Pai contemporâneo: diálogos entre pesquisadores brasileiros no período de 1998 a 2008. Revista Psicologia Argumento, 29(66), 53-360. Recuperado em: http://www2.pucpr.br/reol/pb/index.php/pa?dd1=5293&dd99=view&dd98=pb

Oliveira, A. G. de; & Silva, R. R. (2012). Parto também é assunto de homens: uma pesquisa clínico-qualitativa sobre a percepção dos pais acerca de suas reações psicológicas durante o parto. Interação em psicologia, 16(1), 113-123. Recuperado em http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&src=google&base=LILACS&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=668938&indexSearch=ID.

Postpartum Men. (2017). Postpartum men: helping men beat the baby blues and overcome depression. Recuperado em http://postpartummen.com/

domingo, 7 de maio de 2017

Masculinidade positiva - o que há de bom nos homens

Hoje, falaremos um pouco sobre o Capítulo 5 do do livro An International Psychology of Men, intitulado Promoting Positive Masculinity while addressing Gender Role Conflict, do psícologo americano, Mark S. Kiselica.

Mark S. Kiselica é psicólogo positivo e ex-presidente da Society for Psychological Study of Men and Masculinity. A grande contribuição de Kiselica para a Psicoandrologia são duas: primeiro é que seus estudos possuem embasamento empírico, ou seja, não são meras especulações teóricas; a segunda é sua ênfase em ver os homens como seres humanos completos, com defeitos, mas principalmente, qualidades.

Kiselica adverte-nos que não devemos focar apenas nos defeitos dos homens, muito menos em ver seus problemas apenas como resultados de uma "masculinidade tóxica", todos temos qualidades e devemos valorizar isso ao falarmos com homens. Vou apresentar as 10 qualidades masculinas listadas por ele. Antes, quero apenas lembrar o leitor que não se trata de qualidades apresentadas apenas por homens, mas são qualidades, geralmente, associadas aos homens, cobradas pela sociedade que os homens as possuam e há estudos empíricos comprovando que são mais frequentes em homens que em mulheres.

  • Estilos masculinos de relacionamento: Homens e meninos tendem a se divertir e ter momentos de intimidade através de atividades instrumentais e orientados para a ação, ou seja, por meio de jogos, esportes ou trabalhando em um projeto. Se estiver tendo dificuldades para que um homem "se abra" para você, tente perguntar enquanto realiza uma atividade, como um jogo.
  • Formas de carinho masculino: Homens são criados para se importarem e proteger amigos e outras pessoas amadas, além de terem empatia de ação, que é a capacidade de agir baseado em como o outro vê as coisas (não confundir com a empatia emocional, que é a capacidade de entender como a outra pessoa está se sentindo e mais forte nas mulheres). Se você acha que um namorado, filho, amigo não gosta mais de você porque ele não expressa verbalmente, lembre-se que homens tendem a manifestar seu carinho por meio de ações. Valorize mais essas ações.
  • Paternidade generativa: bons pais respondem de forma rápida e adequadamente às necessidades do(a) filho(a), de acordo com as necessidades de cada idade, preocupando-se em levar a próxima geração a um futuro melhor. Como mencionei no último post, homens são preocupados em garantir um desenvolvimento saudável a seus filhos e filhas, seja esse desenvolvimento moral, intelectual, emocional ou social.
  • Independência masculina: Homens são educados para enfrentar os desafios da vida com seus próprios recursos. Um homem com uma dose saudável de independência considera a opinião dos outros sobre problemas, mas não permite que os outros tomem decisões por ele. Ao mesmo tempo, ele considera as necessidades dos outros e como pode satisfazê-las.
  • A tradição do homem trabalhador/provedor: É culturalmente esperado que um homem trabalhe, sendo a palavra "trabalhador" um pré-requisito para que o homem seja visto socialmente como um "homem de verdade", além de, sustentar financeiramente sua família ser visto como uma demonstração de amor. Assim, o trabalho provê ao homem um senso de propósito e realização, sendo um importante fator de promoção à saúde e qualidade de vida.
  • Coragem e ousadia masculina: Meninos e homens com bom senso aprendem a diferenciar riscos que valem a pena correr e riscos tolos, agindo com coragem e ousadia em tarefas que podem ser perigosas, mas necessárias, seja arriscando-se para proteger alguém, seja na execução de trabalhos perigosos e, muitas vezes, insalubres.
  • Orientação a grupos: Homens são propensos a formarem grupos para atingir um propósito comum e eles formaram grupos há milênios para atingir as maiores realizações da humanidade. Homens passam mais tempo em atividades de grupo coordenada, enquanto mulheres passam mais tempo em relações diádicas (apenas duas pessoas). Se você fizer uma lista de atividades realizadas em grupo, observará que homens tendem a apreciar a maioria mais que mulheres.
  • Serviços humanitários em fraternidades: Ao longo da História, homens formaram organizações destinadas a ajudar os outros. O envolvimento em organizações sociais masculinas é uma oportunidade para homens desenvolverem interesse social, ou seja, um senso de pertencimento e participação com outros para um bem comum, construindo um mundo melhor.
  • Uso do humor: Homens usam o humor como forma de obter intimidade, diversão, uma forma de criar experiências felizes, como uma forma de mostrar que se importam com os outros, para reduzir a tensão e lidar com conflitos. Pesquisas indicam que homens usam o humor como ferramenta de cura em tempos de estresse e doença. Lembrem-se de Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban. O bicho-papão sempre assume a forma daquilo que você tem mais medo e, para derrotá-lo, deve-se fazê-lo "pagar mico", usar um "feitiço de humor".
  • Defence against boggart
  • Heroísmo masculino: Ao longo da História, incontáveis homens usaram a "masculinidade tradicional" para juntar as qualidades anteriores e superar grandes obstáculos, fazendo contribuições excepcionais. Homens heróicos incluem personagens mitológicos, como Hércules, figuras históricas como Martin Luther King, e heróis do cotidiano, como pais devotados e trabalhadores.
Qual dessas qualidades é a sua preferida? Teria alguma outra a acrescentar? Deixe sua resposta nos comentários, inscreva-se para receber atualizações, e compartilhe com os amigos.

sábado, 6 de maio de 2017

Psicologia - ciência amiga ou inimiga dos homens

Quando digo para as pessoas que meu principal interesse é na Psicologia do homem, na Psicoandrologia, a primeira reação das pessoas é fazer uma careta e perguntar por quê, reação que não percebo quando colegas dizem "quero trabalhar com autistas", "com RH", "com câncer", "com escola" etc. Por que é tão estranho querer trabalhar com homens?
Conheci essa área da psicologia em 2013 e de lá para cá, me surpreendo cada vez mais, num sentido bem negativo, com a forma como psicólogos tratam esse segmento da população. O primeiro "contato" que tive, foi com a ausência. Na biblioteca da faculdade, havia cerca de 7 livros sobre psicologia feminina para cada livro sobre psicologia masculina.

Comecei a procurar, nas redes sociais, outros psicólogos que se interessassem pelo assunto e, até hoje, só encontrei um e, o que é pior, não foi num grupo de psicólogos. Perdi as contas de quantas palestras, cursos, workshops e atendimentos especializados vi para "mães de autistas", "mães de gêmeos", "mães de crianças com síndrome de Down", "mulheres que sofreram abortos", "mulheres vítimas de violência conjugal", "como ser mulher no século XXI", "como ser uma mulher de sucesso no trabalho e ainda ser feminina", "como as mulheres podem conciliar trabalho e família", "entre em contato com sua deusa interior", "encontros de mulheres" e por aí vai. Até hoje, nunca vi um anúncio de evento para homens. Quando pergunto por que deixar os homens de lado, a resposta geralmente é "que bom que você se interessou. No momento, trabalho apenas com mulheres, mas farei algo para os homens no futuro". Só que o futuro nunca chega e, quatro anos depois, a mesma pessoa continua me dando a mesma resposta para o mesmo curso.
O mais próximo que já vi de um evento disposto a abordar o atendimento a homens foi uma palestra sobre gênero na qual houve quatro apresentações: uma sobre homossexuais, uma sobre homens, uma sobre mulheres e uma sobre transsexuais. Essa foi, talvez, a minha maior decepção, pois o palestrante que se propôs a falar sobre homens não falou sobre homens, mas falou que seus pacientes eram quase todos mulheres que reclamavam de não conseguir um "homem de verdade" e que "não se fazem mais homens como antigamente". A partir daí, ele começou a "filosofar" sobre o comportamento masculino sem mencionar um único estudo sobre psicologia masculina, sem considerar a opinião de um único indivíduo sobre a sua própria experiência em ser homem e, quando eu o indaguei por que essa abordagem, a resposta foi "porque os homens não vão para o consultório". 
Homens são 49% da população brasileira e o próprio palestrante era homem! Ele poderia simplesmente ter conversado com amigos, vizinhos, colegas de trabalho, qualquer coisa pra dar um pouco de fidedignidade, mas não! Ele preferiu dizer que homens estão mais covardes, que eles têm medo de "mulheres independentes" e preferem se esconder atrás de aparelhos eletrônicos. Há homens com esse perfil? Aposto que sim. É por esse motivo que mulheres não conseguem encontrar "homens de verdade"? Claro que não.

Nos Estados Unidos, a Sociedade de Estudos Psicológicos do Homem e da Masculinidade (51ª Divisão da APA), que é o mais próximo de uma comunidade científica de estudos psicológicos sobre homens, tem como um de seus objetivos criar uma "Psicologia empática para com homens". Pegue qualquer livro produzido pela 51ª divisão, um artigo escrito por qualquer membro, acompanhe o grupo oficial do Facebook e você verá muitas coisas interessantes e úteis, mas, ao se distanciar um pouco e ver de forma mais objetiva e racional, perceberá que homens são infantilizados. Para a "Psicologia do Homem e da Masculinidade", a masculinidade é sempre tóxica e os homens são egoístas, violentos, insensíveis, sádicos e covardes. Nas palavras de Kiselica (2010), aquele que considero, por enquanto, o único membro sensato dessa comunidade,
"[A Psicologia do Homem e da Masculinidade] abraça esse tipo de modelo deficiente de desenvolvimento masculino que, além de não ter embasamento empírico, também contradiz um grande corpo de evidências em Psicologia do Desenvolvimento, podendo ter consequências perigosas. Ela alimenta a mentalidade de que garotos e homens são defeituosos, que precisam de conserto, e que eles são os culpados pelos problemas que os trazem a terapia". (p. 132-133, tradução minha)

Se você acha que estou exagerando, vá nos portais da Scielo, na PePSIC ou na BVS-Psi e escolha qualquer artigo que aborde a masculinidade. Que não apenas descreva, mas tente explicar o comportamento masculino e, com raras exceções, eles só mencionam os defeitos dos homens, geralmente de forma a induzir no leitor que os homens e os defeitos masculinos são uma coisa só. Poucos são os trabalhos que se salvam. Não estou especulando, estou trabalhando num artigo de revisão sistemática da literatura e, embora ainda não esteja concluído, já li mais da metade, mais de 30, dos artigos e digo que dificilmente essa impressão sairá.

Minha última terapeuta disse-me: "homens não vêem ao consultório porque vivemos numa sociedade machista. Se você quiser viver de atender homens, vai passar fome". Bom, por que homens iriam procurar um psicólogo se, antes de ser atendido, o psicólogo já sabe qual a causa do problema (machismo, masculinidade tóxica) e que o tratamento é uma espécie de doutrinação ideológica? Não temos a coragem de levantar a bunda da poltrona para perguntar a um amigo sobre um determinado assunto, mas sabemos e ensinamos a todos que homens têm medo de mulheres independentes?
Nesses últimos quatro anos, tenho prestado mais atenção nas pessoas quando saio de casa, em meus parentes e amigos e, principalmente, tenho procurado grupos de homens que discutem sobre a condição e as necessidades masculinas contemporâneas e afirmo, homens estão dispostos a "se abrir, falar de seus sentimentos", desde que estejamos dispostos a ouví-los. Por exemplo, em minha faculdade de graduação, esse ano, foi criado um projeto de pré-natal psicológico com mulheres gestantes. Os homens, vendo que aquilo estava fazendo bem a suas companheiras, pediram que também fosse feito um projeto com eles, pois eles não têm um espaço no qual possam conversar sobre a paternidade. Agora, a universidade não consegue criar um grupo de pré-natal para homens, porque o projeto foi pensado apenas nas mulheres e a logística não permite.

Recentemente, buscando conhecer melhor o que a Psicologia poderia oferecer aos homens, criei um formulário e solicitei que homens com mais de 15 anos o respondem-se (clique aqui para respondê-lo), o qual apresentarei os resultados até o presente momento.


  • No total, houve 48 respondentes;
  • A idade variou entre 15 e 62 anos (média: 27,5 anos, desvio padrão: 9,5 anos);
  • Responderam homens de 15 estados brasileiros, principalmente São Paulo (16 respondentes) e Paraná (6 respondentes);
  • 40 deles (83,3%) acham importante que haja grupos de discussão das necessidades masculinas;
  • Aqueles que disseram conhecer tais grupos (26 participantes) mencionaram grupos ativistas por direitos dos homens, totalmente virtuais (sim, compartilhei o formulário em grupos ativistas e sim, está enviesado. Mas também mandei para outros grupos, como ativistas por direitos das mulheres e o retorno foi baixíssimo. Então, essa é a população de referência). O único participante a mencionar um grupo presencial, apontou para um grupo feminista de reeducação de homens que agrediram suas companheiras;
Os temas mais importantes para se abordar obedeceram o seguinte rank:
  • 1º) com 39 votos (81,2%), o tema "Paternidade" é considerado o tema mais importante para os homens;
  • 2º) empate triplo entre "Educação", "O que significa 'ser homem'" e "Saúde". Cada um recebeu 36 votos (75,0%);
  • 3º) Suicídio - 35 votos (72,9%)
  • 4º) Relações amorosas e/ou sexuais - 34 votos (70,8%)
  • 5º) Trabalho - 33 votos (68,8%)
  • 6º) Violência - 32 votos (66,7%)
  • 7º) Dependência química - 23 votos (47,9%)
  • 8º) Empate entre "Esporte" e "Outros" - 12 votos (25%) cada
Vendo esses resultados, fica claro para mim por que homens não procuram serviços psicológicos. Quase todos os programas específicos para homens focam em violência (geralmente doméstica) e, quando há, em dependência química, temas que estão por último do rank de prioridades.

Por que quando trabalhamos com homens, precisamos focar na violência nos relacionamentos amorosos (sendo obrigatoriamente, o homem como agressor)? Por que não podemos falar do que significa ser homem num relacionamento amoroso? Afinal, as mulheres passaram a ter permissão para xavecar um homem e não ser chamada de vadia, mas ainda é esperado que o homem tome a iniciativa e, se a mulher tomar a iniciativa, ele é obrigado a ficar com ela. Por que não falamos sobre o impacto do trabalho no exercício da paternagem?

Terminarei com dois novos formulários: Se você é psicólogo(a) e tem alguma experiência no atendimento a homens que gostaria de relatar, para que eu aborde mais detalhadamente, clique aqui. Se você é homem e passa ou já passou por atendimento psicológico, compartilhe conosco sua experiência aqui.

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Obra citada
KISELICA, M. S. Promoting Positive Masculinity While Addressing Gender Role Conflict: A Balanced Theoretical Approach to Clinical Work with Boys and Men. In: BLAZINA, C.; SHEN-MILLER, D. S. An international psychology of men. New York: Routledge, 2010. Cap. 5, p. 127-156.