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sábado, 13 de janeiro de 2018

Diferenças entre homens e mulheres - parte 2


Terminamos 2017 falando sobre a teoria E-S e diferenças de motivação entre os sexos e retomaremos em 2018 continuando daí.

Falei da teoria E-S porque, juntando tudo que sei sobre a masculinidade e a feminilidade, parece que o "coração" das diferenças de gênero consiste numa tendência inata de homens prestarem mais atenção em coisas mecânicas e pragmáticas, enquanto a atenção feminina tende a focar em pessoas e relacionamentos.

Chamo de tendência porque, como tudo no estudo de seres vivos, essa regra não é absoluta. Há pessoas que, por razões desconhecidas, parecem ter a preferência invertida. Essas pessoas tendem a se comportar e fazer escolhas consideradas estranhas para o seu próprio sexo, mas, ao contrário do que possamos pensar, não significa necessariamente que sejam homossexuais.

Isso pode ser observado já no primeiro dia de vida. Coloque o/a bebê deitada e, de um lado, coloque uma boneca ou algo que lembre um rosto humano. Do outro lado, coloque algo que não lembre um humano, como um carrinho. Agora, cronometre quanto tempo o/a bebê fica olhando para cada objeto. Quase sempre, o menino passará mais tempo olhando para o carrinho que para a boneca, e o contrário ocorrerá com a menina. Essa diferença é estatisticamente significativa.

Há quem defenda que a diferença seja ensinada, mas isso parece improvável se considerarmos que ela já está presente muito antes do/a bebê aprender que as pessoas são diferenciadas em dois sexos ou do adulto ter tempo de ensinar a criança o que é "coisa de menino" e o que é "coisa de menina". Além disso, se você repetir esse experimento com alguns animais, principalmente outros primatas, você terá praticamente o mesmo resultado, reforçando a hipótese de que essa tendência não é aprendida.

A ideia de que todas as diferenças são resultantes apenas da criação é tentadora, pois queremos acreditar que podemos controlar quem nossos filhos e filhas serão. Que as crianças não passam de tábulas rasas esperando que lhes programemos para ser de um jeito ou de outro, mas, precisamos aceitar que só podemos influenciar os outros até certo ponto. Podemos não perceber ou não querer acreditar, mas os bebês já nascem com vontade própria, já tem uma opinião sobre o que gostam e o que não gostam e, como toda opinião, ela pode ser alterada, mas não há garantias.

Para saber mais, inscreva-se para ser notificado de novas postagens, leia meu ebook ou compareça no meu workshop.


Fontes:

Baumeister, R. (2010). Is there anything good about men?: how cultures flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press.
Menezes, A. B. de C., & Brito, R. C. S. (2013). Diferenças de gênero na preferência de pares e brincadeiras de crianças. Psicologia: reflexão e crítica, 26(1), 193-201. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79722013000100021&lng=en&nrm=iso>.
Menezes, A. B. de C., Brito, R. C. S., Figueira, R. A., Bentes, T. F., Monteiro, E. F., & Santos, M. C. (2010). Compreendendo as diferenças de gênero a partir de interações livres no contexto escolar. Estudos de Psicologia (Natal)15(1), 79-87. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/epsic/v15n1/11.pdf>.
Menezes, A. B., Brito, R. C. S., & Henriques, A. L. (2010). Relação entre gênero e orientação sexual a partir da perspectiva evolucionista. Psic.: teor. e pesq., 26(2), p. 245-252. Doi: https://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722010000200006

Primeiro episódio de “Hjernevask” (Levagem cerebral). Criação: Harald Eia e Ole-Martin Ihle. Noruega: NRK1, 2010. (38min 51s). Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=sIgH7Hlsbag>.
Documentário "Science of men" (Ciência de homens). Criação: Anna Fitch. Estados Unidos: National Geographic, 2008

sábado, 9 de dezembro de 2017

Quais as diferenças entre homens e mulheres - parte 1

Uma pergunta que assola a humanidade a milênios é "quais as diferenças (não-físicas) entre homens e mulheres"?

As primeiras teorias eram muito vagas, como a teoria Yin-Yang chinesa, ou resumiam-se em generalizações do que as pessoas percebiam baseadas em diferenças físicas e sociais, sem se preocupar em verificar se tais percepções eram são verdadeiras. Por exemplo, é dever do homem lutar para proteger as mulheres e crianças (ou pilhar os bens de que precisavam para sustentar suas famílias), e eles eram treinados desde a infância para serem guerreiros, logo, características relacionadas a combates deveriam ser masculinas.

Mas hoje pensamos "até que ponto essas diferenças foram criadas por nós mesmos"? O antropólogo David D. Gilmore, em sua obra prima Manhood in the Making, apresenta dados que parecem indicar que as diferenças são ativadas diante de ambientes hostis, decorrentes das limitações impostas a sexo para gerarmos descendentes. Quanto mais hostil o ambiente, mais forte a pressão para que cada sexo desempenhe tarefas específicas para sobreviver (o que ficou conhecido como machismo/patriarcado). Quanto menos hostil, mais livres as pessoas são para viverem como quiserem.

Entretanto, há algumas diferenças quase imperceptíveis que parecem se reproduzir independente do ambiente, às vezes, pouco depois do nascimento e que, embora não sejam exclusivas de um sexo, parece que há uma clara tendência para que cada sexo tenha uma característica específica.

As características mais estudadas são o melhor desempenho de homens em testes que envolvem habilidades espaciais (tirando memória espacial) enquanto mulheres têm melhores habilidades comunicativas. Baron-Cohen e seu trabalho com pessoas com Síndrome de Asperger foi, talvez, a primeira mudança para uma compreensão mais ampla. Ele criou a teoria E-S (Empathising-Systemising, algo como "empatização-sistemação"). Segundo essa teoria, podemos pensar o funcionamento do cérebro como dois eixos perpendiculares, sendo que um eixo representa nossa capacidade de identificar as emoções e pensamentos de uma pessoa e responder apropriadamente a eles, e o outro representa nossa capacidade de compreender como um sistema funciona e a criar novos sistemas. Algumas pessoas têm ambas as habilidades equilibradas, mas a maioria dos homens é significativamente melhor em compreender sistemas, enquanto a maioria das mulheres é melhor em compreender pessoas.

Outra teoria mais recente, e que acredito ser muito melhor e perfeitamente exemplificada no livro Is there anything good about men?, de Roy Baumeister, defende que homens e mulheres não possuem diferenças com relação às suas habilidades, mas com relação às suas motivações, o que afeta como suas habilidades são usadas. Dessa forma, não se trata de compreender melhor pessoas ou sistemas, mas de preferência por relacionamentos x preferência por funcionamento; empatia emocional x empatia de ação; que falarei com mais detalhes, no próximo artigo.

Referências

BARON-COHEN, S. The extreme male brain theory ofautism. TRENDS in cognitive sciences, [s. l.], v. 6, n. 6, p. 248-254, Junho 2002.
BAUMEISTER, R. F. Is there anything good about men?: How culture flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press, 2010. 
GILMORE, D. D. Manhood in the making: cultural concepts of masculinity. New Haven, NY: Yale University Press, 1990.
KISELICA, M. S. Promoting Positive Masculinity While Addressing Gender Role Conflict: A Balanced Theoretical Approach to Clinical Work with Boys and Men. In: BLAZINA, C.; SHEN-MILLER, D. S. (Ed.). An international psychology of men. New York: Routledge, 2010. Cap. 5, p. 127-156.

sábado, 18 de novembro de 2017

Como está a situação do homem e o que esperar para o futuro?

Esse tema foi sugerido pelo Carlos Lira na página do facebook e é, talvez, o tema que mais interessa os leitores desse blog.

Um dos métodos considerados mais eficazes para entender os valores coletivos é a análise de histórias populares, comerciais e afins. Um dos estudos mais surpreendentes descobriu que em comerciais com um homem e uma mulher, no qual um dos dois é retratado como um idiota ou perde uma competição, o perdedor ou idiota é o homem em 100% dos casos. Esse é um resultado chocante, pois é tecnicamente impossível obter 100% em um estudo envolvendo humanos e, ainda assim, aconteceu. Desde então, diversos outros pesquisadores têm repetido o estudo e sempre encontraram o mesmo resultado.

Outro exemplo de uma mídia com público específico, mas que acredito que reflita a forma como a sociedade em geral percebe o homem é a história em quadrinhas de Thor, personagem da Marvel baseado na divindade nórdica de mesmo nome. Na cultura nórdica, o martelo de Thor (Mjolnir) representava a masculinidade e amuletos representando-o eram usados para conferir fertilidade às mulheres e proteção. Contudo, nos quadrinhos, ele não só deu a uma mulher os poderes de Thor, como impedi-a de se curar de seu câncer. O que antes gerava e protegia a vida, agora é uma fonte de poder autodestrutiva.

Sócrates Nolasco escreveu um livro sobre a mudança que ocorreu no último século do ideal de masculinidade ser associado a personagens fortes, como Tarzan, e que hoje é associado a Homer Simpson. Farrell compara o ideal pré-feminista com o programa de comédia Father knows best (papai sabe o melhor) e diz que o ideal atual é Father molest (papai abusa).

Aquele que, para mim, representa o melhor exemplo da situação atual da masculinidade são os filmes de Shrek. Shrek é retratado como um porco, rabugento, muito gentil, mas que está sempre tentando passar a impressão de ser mau. Ele acaba se apaixonando por uma mulher que corresponde aos ideais de beleza e que, apesar de demonstrar ter as qualidades para ser independente (cena em que Robin Hood tenta "salvá-la" de Shrek), precisa ser salva de seu castelo-prisão. Além disso, apenas depois de Shrek se declarar, sua "verdadeira" forma é revelada.

Ele acaba se tornando amigo de um burro tagarela, um gato galeanteador, um mentiroso cara-de-pau, um lobo que come menininhas e um menino doce (homem-biscoito). Shrek é frequentemente retratado como egoísta, mau-educado e irresponsável, como em Shrek 3 e, principalmente, em Shrek 4ever. Fiona, por outro lado, é sempre retratada como forte, decidida e sensata.

O que esperar para o futuro? Difícil dizer. Acredito que, inicialmente, a situação piorará muito, para só depois de algumas gerações melhorar. Contudo, como vivemos na era da informação e das mudanças rápidas, a melhora pode chegar muito antes de minha previsão. O fato é que, considerando que a tecnologia está tornando a força física cada vez mais desnecessária, os trabalhos cada vez mais seguros e as mulheres tendo cada vez menos filhos e em idade cada vez mais avançada, a tendência que as diferenças entre homens e mulheres diminuam e o modelo antigo seja completamente abandonado, pelo menos, até que alguma tragédia ocorra.

Discuto isso com mais detalhes no meu ebook, também disponível em versão impressa no site em inglês da Amazon. Se gostou desse post, curta, compartilhe e deixe seus comentários. Se gostou do livro ou ebook, lembre-se de deixar sua avaliação.

Referências

Baumeister, R. (2010). Is there anything good about men?: How cultures flourish by exploiting men. New York, Oxford University Press.

Farrell, W. (2001). Father and child reunion: How to bring the dads we need to the children we love. New York, Tarcher.

Moraes, Y. L. (2017). Ser homem ou não ser?: O que é ser homem no início do século XXI. [s.l.], independently publisher.

Nolasco, S. (2001). De Tarzan a Homer Simpson: Banalização e violência masculina em sociedades contemporâneas ocidentais. Rio de Janeiro, Rocco.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Dia internacional do homem chegando com novidade!

Dia 19 de Novembro é o Dia Internacional do Homem e, para comemorar, você já pode reservar meu livro "Ser Homem ou Não Ser? O que é ser homem no início do século XXI", nos sites da Amazon.

sábado, 4 de novembro de 2017

Quando o homem falha na cama - impotência sexual

O primeiro tema sugerido para esse mês é um problema temido por muitos homens, a disfunção erétil, mais conhecida como impotência sexual. A disfunção erétil consiste em ter dificuldades para ter ou manter uma ereção suficiente para um desempenho sexual satisfatório.

A disfunção erétil torna-se mais comum a medida que o homem envelhece, mas pode ocorrer em qualquer idade e sua causa pode ser cardiovascular, neurológica, hormonal e/ou psicológica. As causas mais comuns tendem a ser Diabetes, Hipertensão, Hiperlipidemia (excesso de gordura no sangue), obesidade, deficiência de testosterona, ansiedade de desempenho (preocupação relacionada ao ato sexual) e problemas de relacionamento com a parceira.

Muitos medicamentos causam ou agravam a disfunção erétil, principalmente remédios antidepressivos. Se você passou a ter disfunção erétil após começar a tomar algum medicamento, verifique com seu médico se pode ser o medicamento e se é possível trocar-lo. Fumar, bebidas alcoólicas e drogas ilícitas podem causar disfunção erétil.

Cerca de 10% dos homens que sofrem com disfunção erétil tem diabetes não-diagnosticada e episódios de disfunção erétil tendem a ocorrer de 2 a 5 anos antes de uma doença arterial coronariana se manifestar. Assim, se você tem sofrido com disfunção erétil, é importante consultar um cardiologista e um endocrinologista.

Às vezes, a disfunção erétil pode ser curada pela simples mudança de hábitos, como parar de fumar, fazer exercícios regularmente e, para os obesos, perder peso. Além de hábitos para controle de diabetes, hipertensão e hiperlipidemia. Em homens com menos de 40 anos, é mais provável que a causa da disfunção seja psicológica, embora disfunções eréteis de origem psicológica possam ocorrer em qualquer idade.

Causas psicológicas tendem a incluir a ansiedade de desempenho, tabus religiosos, histórico de abuso sexual, mitos sexuais (ex.: "homem nunca deve recusar sexo"), Transtornos Depressivos, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Transtornos Ansiosos e ter pensamentos negativos durante a atividade sexual. Todas essas causas podem ser tratadas com psicoterapia de abordagem cognitiva-comportamental, sendo que a terapia em grupo e o envolvimento da parceira no processo terapêutico tem mais efetividade que a terapia individual.

Uma forma de identificar se a disfunção é de origem psicológica ou orgânica é tentando ter uma ereção durante a masturbação. Quando a causa é orgânica, o pênis não fica ereto nem mesmo durante a masturbação, mas tende a ficar quando a causa é psicológica. Contudo, nem sempre esse método acerta e uma avaliação precisa só pode ser realizada por um profissional.

Quando psicoterapia e mudança de hábitos não dão certo, costuma ser necessário recorrer a medicamentos, sendo os mais eficazes os inibidores de fosfodiesterase-5, família do famoso Viagra (não se automedique, consulte um médico para saber se você pode tomá-lo). Estudos sugerem que, independente da causa, a psicoterapia combinada com o uso de medicamentos é mais eficaz que qualquer um dos dois separados.

Quando até mesmo tais medicamentos falham, é necessário recorrer a tratamentos mais invasivos, como injeções intrapenianas, bombas de vácuo e, se isso também falhar, próteses penianas.

Fontes:
Karl & Joel (2016). Erectile Dysfunction.
Brotto e colaboradores (2016). Psychological and interpersonal dimensions of sexual function and dysfunction.

sábado, 8 de julho de 2017

Quantos psicólogos de homem você conhece?

Como toda criança, eu gostava de aprender. Aprender te dá um poder enorme, te permite mudar o ambiente a sua volta. Mas muito mais que poder, aprender te faz perceber que nada é por acaso, as coisas têm um motivo para serem como são, que tudo está conectado e que sempre há algo mais para aprender. Como diz a lore da carta Omniscience Dragon, Managarmr: "É porque eu tudo sei que quero saber ainda mais".

Desde muito cedo, desejo ser um cientista. Não tinha me imaginado um cientista psicológico antes da faculdade, mas sempre um cientista. Perceber que tudo possui uma lógica, mesmo quando parece acidental ou prejudicial, me fez querer aprender mais pelo simples prazer de entender as coisas do que para mudá-las. Vejo pessoas que dizem estudar algo para mudar esse algo, mas isso para mim é inconcebível. Como posso querer mudar algo que eu ainda não entendo?

Por outro lado, como acredito acontecer com a maioria das pessoas, as diferenças entre homens e mulheres sempre me despertou curiosidade. As diferenças entre os sexos são difíceis de ignorar. Mesmo pessoas que não estão de acordo com o imaginário social de como deve ser um homem ou uma mulher, geralmente, são mais parecidos com o próprio sexo do que com o oposto, o que, como consequência, faz com que prefiramos a companhia de nosso próprio sexo ao do outro, o que não significa de forma alguma rejeitarmos ou odiarmos o outro sexo.

Mas só comecei a pensar realmente em estudar tais diferenças quando, em 2013, descobri que, nas bibliotecas, há uma parte dedicada apenas para estudos sobre homens e outra só para as mulheres e, enquanto os livros sobre mulheres geralmente ocupam uma prateleira inteira ou mais, os livros sobre homens mal chegam nos dois dígitos.

Lendo os livros que encontrava, não apenas me conheci melhor, mas entendi que há razões para homens e mulheres serem diferentes que vão além da questão testosterona x estrogênio e mudei minha opinião sobre muitos assuntos, como a falsa crença de que mulheres são mais atenciosas com crianças que homens. Passei a prestar mais atenção nos outros, procurar grupos que discutem sobre a condição dos homens e procurar pesquisadores e estudos que consideram as diferenças de gênero.

Hoje, fazem quase quatro anos que iniciei minha jornada, que li, observei homens nas ruas, participei de grupos. me formei, mas continuo buscando aperfeiçoamento, tanto que me tornei revisor da revista científica Psychology of men and masculinity.

Porém, infelizmente, a Psicologia brasileira ainda está muito atrasada no atendimento especializado a homens e o único espaço em que homens parecem ter para serem ouvidos são as rodas de amigos íntimos e a internet. Eles não têm meios de conhecer pessoas novas com experiências semelhantes, não têm espaços para trocar ideias, nem profissionais especializados em escutá-los e entender suas reais necessidades.

Pensando nessa falta de profissionais dedicados a levar atendimento de qualidade a homens, pensei em seguir esse mesmo rumo. Sei que haverá muitas dificuldades, que não há profissionais no Brasil que possam me orientar, mas mesmo formado, não parei de buscar informações, de me atualizar e, com tempo e experiência, sei que ser um dos pioneiros nessa área será muito recompensadora para mim, para os homens e para seus entes queridos.

É por essa razão que criei esse blog e peço que comentem com suas opiniões e experiências e, quem gostar, que acompanhe meu trabalho, cadastrando-se.

domingo, 7 de maio de 2017

Masculinidade positiva - o que há de bom nos homens

Hoje, falaremos um pouco sobre o Capítulo 5 do do livro An International Psychology of Men, intitulado Promoting Positive Masculinity while addressing Gender Role Conflict, do psícologo americano, Mark S. Kiselica.

Mark S. Kiselica é psicólogo positivo e ex-presidente da Society for Psychological Study of Men and Masculinity. A grande contribuição de Kiselica para a Psicoandrologia são duas: primeiro é que seus estudos possuem embasamento empírico, ou seja, não são meras especulações teóricas; a segunda é sua ênfase em ver os homens como seres humanos completos, com defeitos, mas principalmente, qualidades.

Kiselica adverte-nos que não devemos focar apenas nos defeitos dos homens, muito menos em ver seus problemas apenas como resultados de uma "masculinidade tóxica", todos temos qualidades e devemos valorizar isso ao falarmos com homens. Vou apresentar as 10 qualidades masculinas listadas por ele. Antes, quero apenas lembrar o leitor que não se trata de qualidades apresentadas apenas por homens, mas são qualidades, geralmente, associadas aos homens, cobradas pela sociedade que os homens as possuam e há estudos empíricos comprovando que são mais frequentes em homens que em mulheres.

  • Estilos masculinos de relacionamento: Homens e meninos tendem a se divertir e ter momentos de intimidade através de atividades instrumentais e orientados para a ação, ou seja, por meio de jogos, esportes ou trabalhando em um projeto. Se estiver tendo dificuldades para que um homem "se abra" para você, tente perguntar enquanto realiza uma atividade, como um jogo.
  • Formas de carinho masculino: Homens são criados para se importarem e proteger amigos e outras pessoas amadas, além de terem empatia de ação, que é a capacidade de agir baseado em como o outro vê as coisas (não confundir com a empatia emocional, que é a capacidade de entender como a outra pessoa está se sentindo e mais forte nas mulheres). Se você acha que um namorado, filho, amigo não gosta mais de você porque ele não expressa verbalmente, lembre-se que homens tendem a manifestar seu carinho por meio de ações. Valorize mais essas ações.
  • Paternidade generativa: bons pais respondem de forma rápida e adequadamente às necessidades do(a) filho(a), de acordo com as necessidades de cada idade, preocupando-se em levar a próxima geração a um futuro melhor. Como mencionei no último post, homens são preocupados em garantir um desenvolvimento saudável a seus filhos e filhas, seja esse desenvolvimento moral, intelectual, emocional ou social.
  • Independência masculina: Homens são educados para enfrentar os desafios da vida com seus próprios recursos. Um homem com uma dose saudável de independência considera a opinião dos outros sobre problemas, mas não permite que os outros tomem decisões por ele. Ao mesmo tempo, ele considera as necessidades dos outros e como pode satisfazê-las.
  • A tradição do homem trabalhador/provedor: É culturalmente esperado que um homem trabalhe, sendo a palavra "trabalhador" um pré-requisito para que o homem seja visto socialmente como um "homem de verdade", além de, sustentar financeiramente sua família ser visto como uma demonstração de amor. Assim, o trabalho provê ao homem um senso de propósito e realização, sendo um importante fator de promoção à saúde e qualidade de vida.
  • Coragem e ousadia masculina: Meninos e homens com bom senso aprendem a diferenciar riscos que valem a pena correr e riscos tolos, agindo com coragem e ousadia em tarefas que podem ser perigosas, mas necessárias, seja arriscando-se para proteger alguém, seja na execução de trabalhos perigosos e, muitas vezes, insalubres.
  • Orientação a grupos: Homens são propensos a formarem grupos para atingir um propósito comum e eles formaram grupos há milênios para atingir as maiores realizações da humanidade. Homens passam mais tempo em atividades de grupo coordenada, enquanto mulheres passam mais tempo em relações diádicas (apenas duas pessoas). Se você fizer uma lista de atividades realizadas em grupo, observará que homens tendem a apreciar a maioria mais que mulheres.
  • Serviços humanitários em fraternidades: Ao longo da História, homens formaram organizações destinadas a ajudar os outros. O envolvimento em organizações sociais masculinas é uma oportunidade para homens desenvolverem interesse social, ou seja, um senso de pertencimento e participação com outros para um bem comum, construindo um mundo melhor.
  • Uso do humor: Homens usam o humor como forma de obter intimidade, diversão, uma forma de criar experiências felizes, como uma forma de mostrar que se importam com os outros, para reduzir a tensão e lidar com conflitos. Pesquisas indicam que homens usam o humor como ferramenta de cura em tempos de estresse e doença. Lembrem-se de Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban. O bicho-papão sempre assume a forma daquilo que você tem mais medo e, para derrotá-lo, deve-se fazê-lo "pagar mico", usar um "feitiço de humor".
  • Defence against boggart
  • Heroísmo masculino: Ao longo da História, incontáveis homens usaram a "masculinidade tradicional" para juntar as qualidades anteriores e superar grandes obstáculos, fazendo contribuições excepcionais. Homens heróicos incluem personagens mitológicos, como Hércules, figuras históricas como Martin Luther King, e heróis do cotidiano, como pais devotados e trabalhadores.
Qual dessas qualidades é a sua preferida? Teria alguma outra a acrescentar? Deixe sua resposta nos comentários, inscreva-se para receber atualizações, e compartilhe com os amigos.

sábado, 6 de maio de 2017

Psicologia - ciência amiga ou inimiga dos homens

Quando digo para as pessoas que meu principal interesse é na Psicologia do homem, na Psicoandrologia, a primeira reação das pessoas é fazer uma careta e perguntar por quê, reação que não percebo quando colegas dizem "quero trabalhar com autistas", "com RH", "com câncer", "com escola" etc. Por que é tão estranho querer trabalhar com homens?
Conheci essa área da psicologia em 2013 e de lá para cá, me surpreendo cada vez mais, num sentido bem negativo, com a forma como psicólogos tratam esse segmento da população. O primeiro "contato" que tive, foi com a ausência. Na biblioteca da faculdade, havia cerca de 7 livros sobre psicologia feminina para cada livro sobre psicologia masculina.

Comecei a procurar, nas redes sociais, outros psicólogos que se interessassem pelo assunto e, até hoje, só encontrei um e, o que é pior, não foi num grupo de psicólogos. Perdi as contas de quantas palestras, cursos, workshops e atendimentos especializados vi para "mães de autistas", "mães de gêmeos", "mães de crianças com síndrome de Down", "mulheres que sofreram abortos", "mulheres vítimas de violência conjugal", "como ser mulher no século XXI", "como ser uma mulher de sucesso no trabalho e ainda ser feminina", "como as mulheres podem conciliar trabalho e família", "entre em contato com sua deusa interior", "encontros de mulheres" e por aí vai. Até hoje, nunca vi um anúncio de evento para homens. Quando pergunto por que deixar os homens de lado, a resposta geralmente é "que bom que você se interessou. No momento, trabalho apenas com mulheres, mas farei algo para os homens no futuro". Só que o futuro nunca chega e, quatro anos depois, a mesma pessoa continua me dando a mesma resposta para o mesmo curso.
O mais próximo que já vi de um evento disposto a abordar o atendimento a homens foi uma palestra sobre gênero na qual houve quatro apresentações: uma sobre homossexuais, uma sobre homens, uma sobre mulheres e uma sobre transsexuais. Essa foi, talvez, a minha maior decepção, pois o palestrante que se propôs a falar sobre homens não falou sobre homens, mas falou que seus pacientes eram quase todos mulheres que reclamavam de não conseguir um "homem de verdade" e que "não se fazem mais homens como antigamente". A partir daí, ele começou a "filosofar" sobre o comportamento masculino sem mencionar um único estudo sobre psicologia masculina, sem considerar a opinião de um único indivíduo sobre a sua própria experiência em ser homem e, quando eu o indaguei por que essa abordagem, a resposta foi "porque os homens não vão para o consultório". 
Homens são 49% da população brasileira e o próprio palestrante era homem! Ele poderia simplesmente ter conversado com amigos, vizinhos, colegas de trabalho, qualquer coisa pra dar um pouco de fidedignidade, mas não! Ele preferiu dizer que homens estão mais covardes, que eles têm medo de "mulheres independentes" e preferem se esconder atrás de aparelhos eletrônicos. Há homens com esse perfil? Aposto que sim. É por esse motivo que mulheres não conseguem encontrar "homens de verdade"? Claro que não.

Nos Estados Unidos, a Sociedade de Estudos Psicológicos do Homem e da Masculinidade (51ª Divisão da APA), que é o mais próximo de uma comunidade científica de estudos psicológicos sobre homens, tem como um de seus objetivos criar uma "Psicologia empática para com homens". Pegue qualquer livro produzido pela 51ª divisão, um artigo escrito por qualquer membro, acompanhe o grupo oficial do Facebook e você verá muitas coisas interessantes e úteis, mas, ao se distanciar um pouco e ver de forma mais objetiva e racional, perceberá que homens são infantilizados. Para a "Psicologia do Homem e da Masculinidade", a masculinidade é sempre tóxica e os homens são egoístas, violentos, insensíveis, sádicos e covardes. Nas palavras de Kiselica (2010), aquele que considero, por enquanto, o único membro sensato dessa comunidade,
"[A Psicologia do Homem e da Masculinidade] abraça esse tipo de modelo deficiente de desenvolvimento masculino que, além de não ter embasamento empírico, também contradiz um grande corpo de evidências em Psicologia do Desenvolvimento, podendo ter consequências perigosas. Ela alimenta a mentalidade de que garotos e homens são defeituosos, que precisam de conserto, e que eles são os culpados pelos problemas que os trazem a terapia". (p. 132-133, tradução minha)

Se você acha que estou exagerando, vá nos portais da Scielo, na PePSIC ou na BVS-Psi e escolha qualquer artigo que aborde a masculinidade. Que não apenas descreva, mas tente explicar o comportamento masculino e, com raras exceções, eles só mencionam os defeitos dos homens, geralmente de forma a induzir no leitor que os homens e os defeitos masculinos são uma coisa só. Poucos são os trabalhos que se salvam. Não estou especulando, estou trabalhando num artigo de revisão sistemática da literatura e, embora ainda não esteja concluído, já li mais da metade, mais de 30, dos artigos e digo que dificilmente essa impressão sairá.

Minha última terapeuta disse-me: "homens não vêem ao consultório porque vivemos numa sociedade machista. Se você quiser viver de atender homens, vai passar fome". Bom, por que homens iriam procurar um psicólogo se, antes de ser atendido, o psicólogo já sabe qual a causa do problema (machismo, masculinidade tóxica) e que o tratamento é uma espécie de doutrinação ideológica? Não temos a coragem de levantar a bunda da poltrona para perguntar a um amigo sobre um determinado assunto, mas sabemos e ensinamos a todos que homens têm medo de mulheres independentes?
Nesses últimos quatro anos, tenho prestado mais atenção nas pessoas quando saio de casa, em meus parentes e amigos e, principalmente, tenho procurado grupos de homens que discutem sobre a condição e as necessidades masculinas contemporâneas e afirmo, homens estão dispostos a "se abrir, falar de seus sentimentos", desde que estejamos dispostos a ouví-los. Por exemplo, em minha faculdade de graduação, esse ano, foi criado um projeto de pré-natal psicológico com mulheres gestantes. Os homens, vendo que aquilo estava fazendo bem a suas companheiras, pediram que também fosse feito um projeto com eles, pois eles não têm um espaço no qual possam conversar sobre a paternidade. Agora, a universidade não consegue criar um grupo de pré-natal para homens, porque o projeto foi pensado apenas nas mulheres e a logística não permite.

Recentemente, buscando conhecer melhor o que a Psicologia poderia oferecer aos homens, criei um formulário e solicitei que homens com mais de 15 anos o respondem-se (clique aqui para respondê-lo), o qual apresentarei os resultados até o presente momento.


  • No total, houve 48 respondentes;
  • A idade variou entre 15 e 62 anos (média: 27,5 anos, desvio padrão: 9,5 anos);
  • Responderam homens de 15 estados brasileiros, principalmente São Paulo (16 respondentes) e Paraná (6 respondentes);
  • 40 deles (83,3%) acham importante que haja grupos de discussão das necessidades masculinas;
  • Aqueles que disseram conhecer tais grupos (26 participantes) mencionaram grupos ativistas por direitos dos homens, totalmente virtuais (sim, compartilhei o formulário em grupos ativistas e sim, está enviesado. Mas também mandei para outros grupos, como ativistas por direitos das mulheres e o retorno foi baixíssimo. Então, essa é a população de referência). O único participante a mencionar um grupo presencial, apontou para um grupo feminista de reeducação de homens que agrediram suas companheiras;
Os temas mais importantes para se abordar obedeceram o seguinte rank:
  • 1º) com 39 votos (81,2%), o tema "Paternidade" é considerado o tema mais importante para os homens;
  • 2º) empate triplo entre "Educação", "O que significa 'ser homem'" e "Saúde". Cada um recebeu 36 votos (75,0%);
  • 3º) Suicídio - 35 votos (72,9%)
  • 4º) Relações amorosas e/ou sexuais - 34 votos (70,8%)
  • 5º) Trabalho - 33 votos (68,8%)
  • 6º) Violência - 32 votos (66,7%)
  • 7º) Dependência química - 23 votos (47,9%)
  • 8º) Empate entre "Esporte" e "Outros" - 12 votos (25%) cada
Vendo esses resultados, fica claro para mim por que homens não procuram serviços psicológicos. Quase todos os programas específicos para homens focam em violência (geralmente doméstica) e, quando há, em dependência química, temas que estão por último do rank de prioridades.

Por que quando trabalhamos com homens, precisamos focar na violência nos relacionamentos amorosos (sendo obrigatoriamente, o homem como agressor)? Por que não podemos falar do que significa ser homem num relacionamento amoroso? Afinal, as mulheres passaram a ter permissão para xavecar um homem e não ser chamada de vadia, mas ainda é esperado que o homem tome a iniciativa e, se a mulher tomar a iniciativa, ele é obrigado a ficar com ela. Por que não falamos sobre o impacto do trabalho no exercício da paternagem?

Terminarei com dois novos formulários: Se você é psicólogo(a) e tem alguma experiência no atendimento a homens que gostaria de relatar, para que eu aborde mais detalhadamente, clique aqui. Se você é homem e passa ou já passou por atendimento psicológico, compartilhe conosco sua experiência aqui.

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Obra citada
KISELICA, M. S. Promoting Positive Masculinity While Addressing Gender Role Conflict: A Balanced Theoretical Approach to Clinical Work with Boys and Men. In: BLAZINA, C.; SHEN-MILLER, D. S. An international psychology of men. New York: Routledge, 2010. Cap. 5, p. 127-156.

Para que uma Psicoandrologia?

Qual a necessidade de uma área da Psicologia focar apenas nas características dos homens? Bem, podemos começar com a citação de Kipnis, que usei na primeira postagem.
"É o bastante para nós saber que, por qualquer motivo, os sexos são diferentes de muitas formas. Sendo assim, podem precisar de abordagens diferentes para seus problemas psicológicos" (Kipnis, 2004, p. 187, tradução minha).
É de conhecimento geral que há doenças e problemas mais frequentes em um sexo que em outro. Por exemplo, que homens tendem a procurar os serviços de saúde quando a doença está num estágio mais avançado, dificultando o tratamento. Este é, talvez, o principal objetivo do Plano Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), descobrir como fazer os homens procurarem os serviços de saúde mais cedo e com mais frequência.

Os dados mais recentes mostram que, no Brasil, 94% das pessoas mortas por armas de fogo foram homens, um total de 39.895 homens mortos (Mapa da violência 2016), 93% dos homicídios de adolescentes com 16 e 17 anos eram homens, foram 3.845 rapazes assassinados (Mapa da violência 2015) e homens suicidam-se quase 4x mais que mulheres (Machado e Santos, 2015). Em Dezembro de 2007, 93% da população carcerária era do sexo masculino, mais de 396 mil presos (Departamento Penitenciário Nacional). Em 2002, houve 4.580 óbitos de homens relacionados à dependência de álcool (Marín-León, Oliveira e Botega, 2007), sendo que 19,5% (quase 1 em cada 5) dos homens são dependentes de álcool, enquanto apenas 6,9% das mulheres também o são; e 14,3% dos homens usam ou usaram maconha (cerca de 3x mais que as mulheres) (CEBRID, 2005).

A pessoa em situação de trabalho escravo na Amazônia é, quase sempre, homem (Théry, Mello, Hato e Girardi, 2009) e 82% dos moradores de rua, em todo o Brasil, também. São pouco mais de 26 mil homens vivendo nas ruas (Cortizo, 2015), além de 76,1% (5,5 milhões) das pessoas que sofreram acidente de trabalho entre 1998 e 2011 (BRASIL, 2013).
Homens cometem e sofrem violência conjugal quase na mesma proporção que mulheres (Zaleski et al., 2010), embora apenas a violência contra a mulher receba atenção. Em 2013, 86,3% dos casos de divórcios concedidos em 1ª instância terminaram com a guarda unilateral para mãe, ou seja, 179.674 crianças e adolescentes ficaram sob os cuidados apenas da mulher, cabendo ao pai apenas o direito de "visitar" seus filhos/as (IBGE, 2014). É sabido que a perda do convívio prejudica o vínculo paterno-filial, podendo terminar com a completa ruptura da relação de um homem com sua prole. Um homem nascido no ano 2000 tem uma expectativa de vida de quase 8 anos a menos que uma mulher nascida no mesmo ano e há quem diga que homens são maioria das crianças e adolescentes com distúrbios de aprendizagem, reprovação e evasão escolar, além de terem notas mais baixas, mas não encontrei fontes confiáveis sobre esses dados.

(Agradeço ao Tiago M. Peixoto, pois sem ele, não teria conseguido muitos desses números).

Para explicar essas diferenças, eu poderia recorrer às teorias que apresentei no primeiro post. Poderia dizer que isso é simples reflexo da neurofisiologia masculina, que é mais agressiva e propensa a correr riscos, ou que isso é culpa de nossa socialização patriarcal que faz os homens acreditarem que são invulneráveis e que não devem buscar ajuda. 

Quantas vezes não ouvi psicólogos dizerem que homens não procuram nossos serviços por preconceito, machismo, vergonha de pedir ajuda? Mas engraçado, homens não têm vergonha de "pedir ajuda" a um advogado, consultor financeiro ou a um banco.

Assim, ambas as respostas são simplistas demais. Se tais dados são apenas reflexo da diferença cerebral entre homens e mulheres, então não há nada que possamos fazer para mudar isso. Se é culpa do patriarcado, por que situações semelhantes, como a menor expectativa de vida, repetem-se mesmo em sociedades não patriarcais? Além de, "patriarcado" não é uma coisa física, nem uma instituição ou doutrina, mas um nome dado a um determinado padrão de comportamentos, seguido por um grande conjunto de pessoas, por razões desconhecidas pelas próprias pessoas. Como "destruir" um conceito? 

Ao invés de seguir o caminho da maioria dos psicólogos de "saber" o problema de um homem, mesmo que nunca tenha conversado com ele e transformar uma terapia ou um estudo científico numa aula de feminismo que, na prática, não oferece resultados, defendo que precisamos ter coragem de abandonar respostas fáceis e reducionistas e encararmos a verdade: usar uma teoria de mulheres que se sentem oprimidas por homens para educá-los não surte efeito, pois eles não se identificam como "opressores". 

Ao invés disso, precisamos recuperar nossa capacidade de escuta e empatia, para entender a lógica por trás do comportamento masculino. Afinal, se homens morrem mais porque foram educados para acreditar que são invulneráveis, por que não temos mais homens se jogando na frente de ônibus e trens para chegar ao trabalho e acreditando que sairão ilesos? Eu pretendia abordar essas questões aqui, mas terá de ficar para a próxima. Encerrarei dizendo que existe um motivo, além dos que mencionei anteriormente, que justificam a criação de uma ciência psicológica do homem e que, na minha opinião, é mais importante que todas as outras juntas:

Homens são cerca de 49% da população! Não há como você passar a sua vida inteira sem ter contato com um homem. Inclusive, não sei qual o seu sexo/gênero, caro leitor, mas há 50% de chances de você fazer parte dessa magnifica população.

terça-feira, 2 de maio de 2017

O que chamo de psicoandrologia

Nesse primeiro post, pretendo explicar o que entendo por psicoandrologia, quais os objetivos desse blog e prometo que tentarei ter uma nova postagem na primeira semana de cada mês.


O termo "psicoandrologia"foi criado por mim através dos termos gregos "psyché" (ψυχή - mente, alma) + "andrós" (ανδρος - homem, humano do sexo masculino) + "logos" (λόγος - palavra, razão, estudo) e seria a área da Psicologia responsável por compreender fenômenos psíquicos específicos dos homens, indo além da mera compreensão do aparelho reprodutor masculino como estudado pela Andrologia.



Apesar do termo ser novo (e só usado por mim até a presente data), o desejo que humanos têm de compreender as diferenças de personalidade, intelectuais e emocionais entre homens e mulheres é, provavelmente, tão antiga quanto a própria humanidade. Entretanto, como bem apontado por diversos estudos, a definição do que significa "ser homem" está relacionada com a definição do que é "ser mulher", de forma que não se consegue falar de um sem mencionar o outro. Assim, a psicoandrologia estaria "presa" à psicoginecologia, pois, se homens e mulheres são iguais, então não é uma característica nem masculina, nem feminina, mas simplesmente humana.



Mas por que usei esses termos, ainda desconhecidos, ao invés de algo mais fácil ou conhecido? Porque há uma diferença importante entre o que creio ser uma Ciência da Masculinidade autêntica e a forma como a masculinidade vêm sendo tratada pelo meio acadêmico e que pode ser dividida nas seguintes formas:



1) A forma mais antiga, presente já na Grécia e China Antigas e presente em teorias biológicas mais tradicionais, é a que eu chamo de Teoria dos Dois Mundos, que pode ser resumida pelo título do célebre livro "Os homens são de marte, as mulheres são de vênus", de John N. Gray. Ela consiste na crença de que existem atributos "masculinos" e outros "femininos" totalmente opostos, incomunicáveis, que deveriam ser inatos e, quando um homem apresenta traços psicológicos femininos ou uma mulher apresenta traços psicológicos masculinos, estamos diante de uma doença. Esse "corpo teórico" nunca se formalizou uma área com características próprias. Sendo assim, não possui autores, obras ou nome específico e tende a ser simplesmente chamada de "Psicologia masculina".

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2) A segunda forma passa a ser visível por volta dos séculos XVIII e XIX, e é uma mescla da teoria dos dois mundos com a próxima, chamo-a de Teoria da androgenia psíquica e consiste na crença de que, embora haja características opostas masculinas-femininas, elas seriam dois extremos de uma mesma retas, não havendo, portanto uma pessoa com a mente de um "tipo sexual puro", mas todos seríamos, mentalmente, homens e mulheres ao mesmo tempo. Contudo, dependendo de seu sexo biológico, a mente seria mais de um jeito que de outro. Quando "sexo" e "gênero" passam a ser consideradas coisas diferentes, a teoria da androgenia psíquica vai defender que corpo e mente não são necessariamente do mesmo sexo/gênero (isso é, um homem pode ter a mente de uma mulher e uma mulher pode ter uma mente de homem). Esse paradigma é muito forte nas teorias psicodinâmicas e, juntamente com a anterior, nunca se tornou um campo independente, sendo chamado de "Psicologia masculina" ao falar sobre o pólo, supostamente, predominante em homens. 
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3) A terceira, nasce com a distinção entre "sexo" e "gênero" no século XX. Essa teoria defende que os conceitos "homem" e "mulher" são meras representações simbólicas construídas pela sociedade, não havendo diferença real entre os dois. Assim, qualquer diferença entre homens e mulheres é simples consequência entre o que uma sociedade permite a um sexo e proíbe ao outro, não havendo nenhuma diferença inata. Ela ganha muita força quando R. W. Connell lança a teoria das múltiplas masculinidades e feminilidades, defendendo que o patriarcado colocou no poder a "masculinidade agressiva, invulnerável, dominadora" e a "feminilidade dócil e submissa", considerando-as as únicas formas verdadeiras de ser homem ou ser mulher e marginalizando todas as outras. É muito frequente em teóricos feministas e sócio-construtivistas e é a teoria dominante em teóricos atuais, sendo que, em 1995, American Psychological Association funda a 51ª divisão, a Sociedade para o Estudo Psicológico de Homens e da Masculinidade, e chama essa vertente de Psicologia do Homem e da Masculinidade.
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4) Poderíamos considerar uma quarta forma, as teorias que, ao invés de discutirem a origem das diferenças entre os sexos/gêneros e sua relação, criticam a forma como autores contemporâneos falam dos homens e das características masculinas apenas como algo negativo e buscam reequilibrar a situação enfatizando apenas os aspectos positivos de homens. Entretanto, tais autores raramente têm seus trabalhos aceitos pela comunidade científica e a divulgação se dá pela afiliação a Movimentos pelos Direitos dos Homens, não tendo um nome específico.



Todas essas quatro teorias parecem simples demais para serem verdadeiras. Gilmore, em seu livro Manhood in the making, mostra brilhantemente as falhas de cada teoria (exceto a última que não é analisada), e, como esse post já está longo demais, sugiro que o interessado procure a obra do autor. Aqui, vou limitar-me a dizer que não possuem embasamento empírico confiável e apresentar minha proposta.

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Em primeiro lugar, o foco da Psicoandrologia não tem compromisso com uma ideologia, filosofia ou movimento específico e sim com a Ciência. Assim, ela tem como fundamento evidências científicas, fatos e teorias passíveis de serem testadas, confirmadas e, principalmente, refutadas. Em segundo lugar, dada a complexidade de fenômenos humanos e a dificuldade de determinar o que é inato e o que é aprendido ou o quanto cada um contribui no fenômeno, essa preocupação deve ficar em segundo plano.

É o bastante para nós, saber que, por qualquer motivo, os sexos são diferentes de muitas formas. Sendo assim, pode ser necessário abordagens diferentes para seus problemas psicológicos. (Kipnis, 2004, p. 187)
Por fim, quem é o homem estudado pela Psicoandrologia? Certamente não é o Homem universal, representante de toda a humanidade. Contudo, também não podemos aceitar que as leis da psicoandrologia sejam aplicáveis a qualquer pessoa simplesmente porque ela se identifica mais com o papel socialmente atribuído aos homens (machos) do que ao das mulheres (fêmeas). Isso tornaria o termo "homem" vazio de sentido e a psicoandrologia seria uma ciência sem objeto de estudo, pois a Psicologia já estuda o Homem-humano.
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Por esse motivo, o homem da psicoandrologia, pelo menos por enquanto, é o macho cis-gênero, ou seja, a pessoa que nasceu do sexo masculino e se identifica como homem. É necessário ampliar nossa compreensão sobre transsexuais e as diferenças sexuais antes de podermos afirmar qualquer semelhança ou diferença entre uma pessoa fêmea, mas que se identifica como homem (e talvez, feito cirurgia pra mudança de sexo) e alguém cuja identidade está de acordo com o esperado para o seu sexo.

Obras citadas

Gilmore, D. D. (1990). Manhood in the making: cultural concepts of masculinity. New Haven, NY: Yale University.

Kipnis, A. R. (2004). Knights without armor: A guide to the inner lives of men (3rd ed.). Santa Barbara, California, United States: Indigo Phoenix Books.