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sábado, 13 de janeiro de 2018

Diferenças entre homens e mulheres - parte 2


Terminamos 2017 falando sobre a teoria E-S e diferenças de motivação entre os sexos e retomaremos em 2018 continuando daí.

Falei da teoria E-S porque, juntando tudo que sei sobre a masculinidade e a feminilidade, parece que o "coração" das diferenças de gênero consiste numa tendência inata de homens prestarem mais atenção em coisas mecânicas e pragmáticas, enquanto a atenção feminina tende a focar em pessoas e relacionamentos.

Chamo de tendência porque, como tudo no estudo de seres vivos, essa regra não é absoluta. Há pessoas que, por razões desconhecidas, parecem ter a preferência invertida. Essas pessoas tendem a se comportar e fazer escolhas consideradas estranhas para o seu próprio sexo, mas, ao contrário do que possamos pensar, não significa necessariamente que sejam homossexuais.

Isso pode ser observado já no primeiro dia de vida. Coloque o/a bebê deitada e, de um lado, coloque uma boneca ou algo que lembre um rosto humano. Do outro lado, coloque algo que não lembre um humano, como um carrinho. Agora, cronometre quanto tempo o/a bebê fica olhando para cada objeto. Quase sempre, o menino passará mais tempo olhando para o carrinho que para a boneca, e o contrário ocorrerá com a menina. Essa diferença é estatisticamente significativa.

Há quem defenda que a diferença seja ensinada, mas isso parece improvável se considerarmos que ela já está presente muito antes do/a bebê aprender que as pessoas são diferenciadas em dois sexos ou do adulto ter tempo de ensinar a criança o que é "coisa de menino" e o que é "coisa de menina". Além disso, se você repetir esse experimento com alguns animais, principalmente outros primatas, você terá praticamente o mesmo resultado, reforçando a hipótese de que essa tendência não é aprendida.

A ideia de que todas as diferenças são resultantes apenas da criação é tentadora, pois queremos acreditar que podemos controlar quem nossos filhos e filhas serão. Que as crianças não passam de tábulas rasas esperando que lhes programemos para ser de um jeito ou de outro, mas, precisamos aceitar que só podemos influenciar os outros até certo ponto. Podemos não perceber ou não querer acreditar, mas os bebês já nascem com vontade própria, já tem uma opinião sobre o que gostam e o que não gostam e, como toda opinião, ela pode ser alterada, mas não há garantias.

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Fontes:

Baumeister, R. (2010). Is there anything good about men?: how cultures flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press.
Menezes, A. B. de C., & Brito, R. C. S. (2013). Diferenças de gênero na preferência de pares e brincadeiras de crianças. Psicologia: reflexão e crítica, 26(1), 193-201. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79722013000100021&lng=en&nrm=iso>.
Menezes, A. B. de C., Brito, R. C. S., Figueira, R. A., Bentes, T. F., Monteiro, E. F., & Santos, M. C. (2010). Compreendendo as diferenças de gênero a partir de interações livres no contexto escolar. Estudos de Psicologia (Natal), 15(1), 79-87. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/epsic/v15n1/11.pdf>.
Menezes, A. B., Brito, R. C. S., & Henriques, A. L. (2010). Relação entre gênero e orientação sexual a partir da perspectiva evolucionista. Psic.: teor. e pesq., 26(2), p. 245-252. Doi: https://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722010000200006

Primeiro episódio de “Hjernevask” (Levagem cerebral). Criação: Harald Eia e Ole-Martin Ihle. Noruega: NRK1, 2010. (38min 51s). Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=sIgH7Hlsbag>.
Documentário "Science of men" (Ciência de homens). Criação: Anna Fitch. Estados Unidos: National Geographic, 2008

sábado, 13 de maio de 2017

Estudos de Paternidade - de onde viemos e para onde vamos?

Se você já procurou alguma coisa sobre desenvolvimento infantil, você provavelmente sabe da importância da mãe para que uma criança seja saudável. Entretanto, não deve ter visto nada sobre o pai. A Psicologia do Desenvolvimento Infantil tem contribuído para afastar o homem do convívio familiar, dizendo que o homem é incapaz de cuidar dos próprios filhos/as, e atribuindo à mulher toda a responsabilidade pela saúde da criança. Uma Psicologia que reduz o relacionamento pai-mãe-criança a uma "tríade de dois" (S. SILVA, 2004, p. 37), e que é
"Alienante e culpabilizante para as mulheres, o mito do instinto materno se revela devastador para as crianças, em particular para os meninos. Esta teoria postula que a mãe é a única capaz de cuidar do recém-nascido e da criança porque fica determinada biologicamente para isso. O par mãe/criança formaria uma unidade ideal que ninguém pode nem deve perturbar. Legitima-se a exclusão do pai, com isto reforça-se a simbiose mãe/filho. (p. 43-44)."
Quando a Psicologia fala da importância do pai, fala-se que, após uma certa idade, ele deve romper a simbiose mãe-bebê, simbiose que os próprios psicólogos alimentaram e o advertiram para proteger, pois rompê-la seria danoso à criança. Eu mesmo, quando preciso procurar fontes científicas sobre paternidade, tenho dificuldade de encontrar artigos bons e preciso recorrer a revistas de enfermagem, que fazem análises psicológicas muito melhores que trabalhos feitos por psicólogos.

Voltemos aos fatos, o pai só começa a ser tratado como importante a partir de 1976, quando Michael E. Lamb publica o livro The role of the father in child development (O papel do pai no desenvolvimento infantil). Porém estudos mais consistentes, explorando a qualidade da relação pai-criança só começaram a surgir na década de 90 (GOETZ; VIEIRA, 2013) e, no Brasil, a comunidade científica só começa a estudar com afinco após o ano de 2004, aproximadamente (OLIVEIRA; R. SILVA, 2011; VIEIRA et al., 2014).
O que precisamos ter em mente ao falar da paternidade? Tornar-se pai acarreta em mudanças na autoimagem, nas relações sociais e nos hábitos de saúde (MORAES et al., 2016), conta com mudanças hormonais para auxiliar na paternagem (NUNES-COSTA et al., 2014), muda em função da personalidade paterna, personalidade da criança, sexo da criança, qualidade da relação conjugal, nível de escolaridade, trabalho, motivação, autoconfiança, suporte social e idade, tanto do pai quanto da criança (LAMB, 1997).

Costumamos reclamar que homens ainda não dividem os cuidados em igualdade com as mulheres. Mas como conseguiremos dividir o tempo em duas metades perfeitamente iguais se, nos casos de divórcio, damos a guarda, quase sempre, só pra mãe (IBGE, 2014) e a duração máxima da licença-paternidade é de 20 dias (nos casos de empresa cidadã) e a duração mínima da licença-maternidade é de 120 dias (ou seja, a licença-maternidade é de 6 a 36 vezes maior que a licença-paternidade)?
Outra questão: por que o pai precisa cuidar da criança nas mesmas áreas em que a mulher é boa? A divisão de tarefas é ruim quando extremamente rígida, impedindo as pessoas de realizarem seus potenciais e de serem felizes, mas a divisão em si não é nem boa, nem má. Tomemos, por exemplo, o estudo de Goetz e Vieira (2013), que perguntou a crianças de 10 e 11 anos sobre como deveria ser um pai e uma mãe ideais e como eram seus pais e mães.

No geral, mulheres se saíram melhores que homens, não havendo grandes diferenças entre a mãe ideal e a mãe real, mas ainda aquém do desejado. Entretanto, as crianças disseram que um pai e/ou uma mãe ideal deveria brincar, em média, pouco mais de quatro vezes por semana com eles e as mães não chegam a brincar nem duas vezes, enquanto os pais brincam de três a quatro vezes por semana.
Esses resultados colaboram com os diversos estudos que apontam que homens brincam mais e tendem a construir o vínculo pai-bebê baseado no lúdico. Muitas pessoas desvalorizam essa atitude, achando que, ao fazer isso, o pai está se reduzindo a um mero recreador, mas brincar é de fundamental importância para a saúde mental e desenvolvimento cognitivo da criança. Qualquer bom professor ou terapeuta brincará com a criança para que ela aprenda e fique bem, por que não deixar o pai fazer o mesmo?

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Obras citadas não disponíveis on-line
GOETZ, E. R; VIEIRA, M. L. Pai real, pai ideal: o papel paterno no desenvolvimento infantil. 3ª ed. reimpr. Curitiba: Juruá, 2013.

LAMB, M. E. The role of the father in child development. New York: John Wiley & Sons, 1997.

MORAES, Y. L. de; ARGENTA, K. S. M.; REZENDE, M. M. A experiência da paternidade de pais de bebês: um estudo descritivo-exploratório. 2016. 278p. Relatório de iniciação científica (Iniciação Científica com bolsa UMESP na graduação em Psicologia) - Escola de ciências médicas e da saúde, Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, SP. 2016.

SILVA, S. M. da. Exercícios da paternidade: estudo de dois casos clínicos. 2004. 162 p. Dissertação (pós-graduação em Psicologia da Saúde) – Faculdade de Saúde, Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, SP. 2004